O assento

Forma é conteúdo. A maneira como se fala uma determinada coisa define a reação de quem ouve, até mais do que o significado do que é dito.

- O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água, retire-o e leve-o para fora da aeronave.

A doçura com que a comissária de bordo anuncia essa probabilidade terrivelmente ameaçadora, que todo mundo sabe que pode acontecer e que o fato de o assento ser flutuante ou pesado como uma âncora não faz muita diferença, faz toda a diferença. Ela fala como se estivessem contando uma historinha para dormirmos em paz, quando o natural, pelo que é dito, seria termos insônia ou pesadelos horríveis. Eleva a altas potências o adequadíssimo termo "flutuante". Você se sente como quem vai realmente flutuar. Cadáveres bóiam. Você flutua. E com aquela interpretação, dá pra imaginar a aeronave pousando como um aviãozinho de papel no mar tranquilo, sob um lindo céu azul. Eu, junto com mais de cem passageiros, nos espreguiçamos, sonolentos como quem tira uma soneca na rede, vestimos nossas sungas e biquínis, passamos bronzeador e colocamos sob o braço nossos assentos flutuantes. Uns correm olimpicamente sobre as asas e se jogam fazendo acrobacias no ar, outros saltam direto para a água e nadam como surfistas em busca da melhor onda. Ou alguém imagina que, com aquela delicadeza toda, algo diferente possa acontecer?


Se os passageiros não entram em pânico antes da decolagem não é por se sentirem seguros com os equipamentos da aeronave. Forma é conteúdo. O mérito é da entonação da comissária de bordo.

O contexto

No momento, ele pensa em trocar de prédio. De preferência, para um bairro distante.

Na noite passada, havia comemorado mais uma etapa vencida na relação com sua namorada. Era uma conseqüência da etapa anterior, em que já podia dizer as mais pesadas bobagens no ouvido dela, enquanto trepavam. Quando ela começou a responder com baixarias que por pouco não o tiraram da concentração, percebeu que colocar no lugar do filme cult dos sábados à noite um pornô de quinta categoria seria absolutamente natural.

Ligou pra ela no final da tarde e disse para chegar às nove, pois receberia a visita de um velho amigo de infância que estava de passagem pela cidade. Matariam as saudades e depois o amigo viajaria de volta à cidade natal dos dois. E assim foi. Quer dizer, mais ou menos.

O amigo acabou saindo mais cedo, para não pegar trânsito até o aeroporto. Ele aproveitou, então, para os preparativos da noite. Olhou a programação do pay-per-view. Às dez começaria um pornô perfeito. Prometia de tudo e, principalmente, cenas curtas. É meu dia de sorte, pensou, lembrando do desastre que foi essa fase com a última namorada. As cenas eram infinitas e, se estimularam alguma coisa, foi o sono dela. A brochada dele foi a última coisa que ela viu antes de dormir profundamente. Aliás, foi a última coisa que ela viu dele, literalmente.

A namorada pensou em chegar um pouco antes das nove, para conhecer o amigo de infância. Era quase que como conhecer a primeira pessoa da família dele - e ao pensar isso se deu conta, em um lapso de romantismo, que aquele era um sinal de que aquela história tinha algo mais. Sorria sozinha enquanto isso passava por sua cabeça e atravessava o corredor até a porta do apartamento. Mas seu sorriso foi diminuindo quando começou a passar por seus ouvidos os gritos do namorado, que atravessaram a porta do apartamento e a atingiram violentamente. Incrédula, arrastou-se por mais uns metros. No lugar do sorriso, uma expressão de horror e espanto. No lugar da fantasia romântica, imagens surpreendentes. Ela não sabe até agora de onde tirou forças para correr de volta para o carro e dali para casa, sem causar um grave acidente de trânsito.

Voltando um pouco.
Ele ligou para a operadora de TV. Primeiro, ouviu a voz gravada de um homem.

- Bem vindo a NTV. Se você tem problema técnico, digite um, se quer comprar um filme, digite dois, se...

Ele digitou logo o dois para encurtar o assunto. Foi quando entrou outro atendimento automático, desta vez com uma voz feminina.

- Certo. Você quer comprar um filme. É isso mesmo? Se é isso mesmo, diga sim, se não, diga...

Ele disse sim. Como seu humor ainda estava influenciado diretamente pela excitação do porvir, o sim foi educado e firme. Sentiu-se dizendo o solene sim de um casamento.

- Não entendi, disse a gravação do outro lado.
Aquele casamento parece que não daria certo.

- Sim! Quase gritou.

- Certo. Você não quer comprar o filme.

- Eu quero!

- Desculpe. Opção inválida. Se você não quer comprar um filme, por que ligou para a NTV? Diga: problema técnico ou pay-per-view ou outro assunto.

- Pay-per-view.

- Pausadamente, por favor.

- Pay...

- Não entendi.

- Pay-per-view! Agora gritou mesmo.

- Certo. Você mudou de idéia e agora quer um filme. Diga agora o canal.

- 169.

- Certo.

- Milagre, ela ouviu!

- Opção inválida.

- Não, não, desculpe!

- Ah, tá. Diga agora o filme.

-Puta merda. Tem que dizer o nome? Não pode ser o horário?

- Opção inválida.

- O filme das dez.

- Opção inválida.

- O diretor, a atriz principal...

- Opção inválida. O nome do filme, por favor. Seu tempo está se esgotando.

- (Susurrando) Põe...

- Não entendi. Repita, por favor.

- Põe no...

- Não enten...

- (Falando grosso) Põe no meu rabinho!

- Pausadamente, por favor.

- (Falando grosso e alto) Põe no meu rabinho!

- Pau...

- (Falando grosso e enlouquecidamente alto) Põe... no meu... rabinho! Que caralho!

- Certo. Você escolheu o filme Põe no meu rabinho. Agora diga: é Põe no meu rabinho 1 ou Põe no meu rabinho 2?

Não se conteve e soltou um longo grito de desespero.

Mas vá explicar aos vizinhos e à namorada que foi mesmo de desespero...