As lágrimas

Tudo certo, no dia errado. Ele sai com os amigos pelo menos quatro noites por semana e não consegue nada. Maré baixíssima. E de repente, em um lugar inesperado, num momento terrível, acontece. Gostosa, perfeita, deusa, diaba. Lado a lado com ele, no engarrafamento. Ela olha uma, duas, três vezes. Sorri. Ele olha pra ela, olha pro outro lado pra ver se o Javier Barden por acaso veio passar uns dias no Brasil e também está engarrafado, numa BMW conversível reluzente, sorrindo pra ela. Não, é com ele mesmo. Ele se remexe, inquieto. Putaqueopariu! Ela fecha o vidro. Ufa! É miragem mesmo. De repente, o vidro fica embaçado. Aquela boca joliniana é a responsável, com uma baforada intrigante. Começam a aparecer números. Começa com 9. Putaqueopariu! É o celular dela! Ele se remexe, inquieto. Pega seu aparelho e anota, freneticamente. E agora? Justo hoje? Liga. Desliga. Ela liga. Oi? Tudo bem? Esse trânsito dá uma vontade de deixar tudo pra trás e ir pra um lugar qualquer… fazer nada… ou tudo… Oi. Tá me ouvindo? Ele se remexe, inquieto. Hoje? Agora… Agora? Já… E o carro dela pisca pro dele. Pra esquerda. Ela toma a dianteira, como se dissesse: eu entro primeiro, depois você. Putaqueopariu! Justo hoje? Mas não tem jeito. Ele se remexe, inquieto com aquela dor terrível e desvia a rota que o levaria a uma consulta para tratar de uma hemorroida que o inferniza há vários dias. Supera, pensa, supera. É só uma dor lancinante no cú. Quando transar, passa. E vai, inventando mais uma dezenas de frases de auto ajuda. Não desista de seu caminho, mesmo que não consiga andar de tanta dor no cú. O caminho leva pra casa dela. O destino está em suas mãos e foda-se o cú, conclui, de forma quase premonitória. Chegam e em poucos segundos estão nus, numa cama imensa. Ela é louca e enlouquecedora. Faz coisas incríveis. Um verdadeiro Cirque du Soleil do sexo. E pouco antes do gran finale, ele quase esquecendo que tinha cú, a vê abrindo em câmera lenta a gaveta do criado mudo e instantes depois, mais mudo que o criado mudo, lembra que tem, sim, um cú. Com hemorroida e agora um vibrador GG até o talo. Ela chega ao êxtase e ele às estrelas. De outro sistema solar. Ela deita-se ao seu lado e relaxa. Ele pensa: caixão ou cremado? Cinco minutos depois ela acorda e olha seus olhos. E diz, com a sinceridade que ele nunca gostaria de ter ouvido de uma mulher: agora me apaixonei… essas lágrimas… que sensível... que lindinho… fofo, me apaixonei… quero mais, muito mais, a tarde toda… enquanto apalpa a cama em busca da minha nave espacial.

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