Tortura

Você conhece algo que tenha seguido adiante depois de alguns comentários como estes? "Vamos manter o contato". "Vamos amadurecer a ideia". "Deixa que eu te ligo". Pra que isso? De onde vem a necessidade de enrolar? Pena? Medo? Ou uma leve queda para a tortura?

- Vem, meu bem, me chupa toda!
- Vamos manter o contato…
- Sim, lógico, contato total! Chupa logo!
- Vamos amadurecer a ideia.
- …
- Deixa que eu te ligo.
A mulher se veste em 5 segundos (comprovadamente, esta é a única situação em que isso ocorre) e, sem o menor medo ou pena, sem se virar, já na rua, grita:
- Deixa que eu te ligo o caralho!

Ou o cara, já apelando pra oração:

- Ó, Senhor, me conceda a graça de conseguir esse emprego! Sessenta anos, deprimido e desempregado, é demais!
- Vamos manter o contato.
- Ó, meu Deus, estou fazendo contato com o Senhor! Aleluia, Senhor. Eu sabia! E então, o que eu preciso fazer?
- Vamos amadurecer a ideia.
- O q… que, Senhor?
- Deixa que eu te ligo.

O sonho

A mulher resolve, então, procurar a terapia. Foi a gota d'água. Aliás, uma goteira. Acontecia todo o dia. Melhor, toda a noite. Sonhos eróticos incríveis. Com o marido. Saía de um filme com o Judd Law e sonhava que dava pro marido! Pegava pilhas de DVDs com os galãs mais bonitos e sexys do planeta e pimba! Sonhava com trepadas cinematográficas com o marido. Era motivo de chacota nas conversas com as amigas. Ui, hoje eu sonhei com o Brad Pitt provocava uma, fazendo bocas de Angelina Jolie. E eu passei a noite dando pro Benício Del Toro, toreava a outra. E você, como foi a noite com o Jorge Antônio? A terapeuta quis saber como estava a vida sexual do casal. Nada. Transavam só nos sonhos dela. É isso, sentenciou. Transe com o marido que os sonhos voltarão a ser fantasias mais interessantes. Naquela noite, encarou firme todo o jogo na TV ao lado do Jorge Antônio, pra não dar chance para qualquer desculpa. Tomou cerveja junto e arrastou o cara pra cama sob olhares desconfiados. E pimpa e pimpa. Deu logo duas pra garantir. Afinal, como disse o comentarista, um a zero era resultado perigoso. No outro dia, o marido continuava olhando desconfiado.
- O que foi?
- Desde quando você gosta de futebol?
- Só porque eu fiquei assistindo ontem?
- Não, porque você passou a noite dizendo, "vai, mete no fundo, aí, isso, não, não tem impedimento, mete logo… Fabinho Cusparada!?
Ela sorriu.
- Nada não. Foi só um lance do jogo de ontem.
Fabinho Cusparada… Ainda não dava pra contar pras amigas. Mas já era um começo.

As lágrimas

Tudo certo, no dia errado. Ele sai com os amigos pelo menos quatro noites por semana e não consegue nada. Maré baixíssima. E de repente, em um lugar inesperado, num momento terrível, acontece. Gostosa, perfeita, deusa, diaba. Lado a lado com ele, no engarrafamento. Ela olha uma, duas, três vezes. Sorri. Ele olha pra ela, olha pro outro lado pra ver se o Javier Barden por acaso veio passar uns dias no Brasil e também está engarrafado, numa BMW conversível reluzente, sorrindo pra ela. Não, é com ele mesmo. Ele se remexe, inquieto. Putaqueopariu! Ela fecha o vidro. Ufa! É miragem mesmo. De repente, o vidro fica embaçado. Aquela boca joliniana é a responsável, com uma baforada intrigante. Começam a aparecer números. Começa com 9. Putaqueopariu! É o celular dela! Ele se remexe, inquieto. Pega seu aparelho e anota, freneticamente. E agora? Justo hoje? Liga. Desliga. Ela liga. Oi? Tudo bem? Esse trânsito dá uma vontade de deixar tudo pra trás e ir pra um lugar qualquer… fazer nada… ou tudo… Oi. Tá me ouvindo? Ele se remexe, inquieto. Hoje? Agora… Agora? Já… E o carro dela pisca pro dele. Pra esquerda. Ela toma a dianteira, como se dissesse: eu entro primeiro, depois você. Putaqueopariu! Justo hoje? Mas não tem jeito. Ele se remexe, inquieto com aquela dor terrível e desvia a rota que o levaria a uma consulta para tratar de uma hemorroida que o inferniza há vários dias. Supera, pensa, supera. É só uma dor lancinante no cú. Quando transar, passa. E vai, inventando mais uma dezenas de frases de auto ajuda. Não desista de seu caminho, mesmo que não consiga andar de tanta dor no cú. O caminho leva pra casa dela. O destino está em suas mãos e foda-se o cú, conclui, de forma quase premonitória. Chegam e em poucos segundos estão nus, numa cama imensa. Ela é louca e enlouquecedora. Faz coisas incríveis. Um verdadeiro Cirque du Soleil do sexo. E pouco antes do gran finale, ele quase esquecendo que tinha cú, a vê abrindo em câmera lenta a gaveta do criado mudo e instantes depois, mais mudo que o criado mudo, lembra que tem, sim, um cú. Com hemorroida e agora um vibrador GG até o talo. Ela chega ao êxtase e ele às estrelas. De outro sistema solar. Ela deita-se ao seu lado e relaxa. Ele pensa: caixão ou cremado? Cinco minutos depois ela acorda e olha seus olhos. E diz, com a sinceridade que ele nunca gostaria de ter ouvido de uma mulher: agora me apaixonei… essas lágrimas… que sensível... que lindinho… fofo, me apaixonei… quero mais, muito mais, a tarde toda… enquanto apalpa a cama em busca da minha nave espacial.