Sem noção

Que a idade traz mais experiência, isso é lugar comum. Mas a verdade é que em todas as fases de nossa vida combinamos experiência com boas doses de falta de noção.
O bebê começa a dar seus primeiros passos e, se achando maior do que é, já olha pro recém nascido com desdém. Depois de alguns passos tortos, como se tivesse bebido cachaça na mamadeira, sem a devida noção de espaço, aterrissa de nariz e abre o maior berreiro, como qualquer recém nascido.
Lá pelos 10 anos garotos que querem ser heróis jogam video game e me deixam louco. De inveja. Coelhos do raciocínio e destreza contra uma tartaruga centenária. Mas chega a hora de dormir e lá vai a tartaruga salvá-los dos fantasmas noturnos, incomparavelmente mais inofensivos que qualquer tiroteio virtual. A fábula ganha nova versão. E valentes sem noção acreditam piamente na minha infalível capacidade protetora.
Os adultos podem. É a hora de fazermos tudo o que nos proibiam. Tudo vale como experiência. Acordar com gosto de cabo de guarda chuva na boca e não saber como aquela pessoa foi parar ao seu lado. Pior, daqui a um tempo, casar com essa pessoa! Separar, cair na gandaia de novo, viajar, sofrer, se apaixonar, sofrer novamente, esquecer o sofrimento, se apaixonar de novo, correr riscos calculados, errar nos cálculos, entre tudo isso ter energia pra trabalhar e cara de pau pra inventar desculpas esfarrapadas pra faltar ao trabalho, realizar alguns sonhos, esquecer outros, acordar com gosto de cabo de guarda chuva na boca e sozinho, chorar, esquecer, rir, começar tudo de novo sem noção de que aquela espécie de "zona de conforto" do tempo acaba.
E vem a meia idade. Você fica meio arrependido do que fez, meio do que não fez. Meio que se achando novo por dentro, mas já sentido que o meio velho de fora não dá conta de seu estado de espírito. Meio deprimido com a descoberta que a "zona de conforto" acabou, meio sem noção de que porra de zona nebulosa é essa em que o tempo lhe meteu.
Na velhice, quando você se dá conta do fato óbvio de que não tem a menor chance de voltar a ser mais novo, vão lhe dizer que em compensação tem a maldita experiência. E você, sem memória e, portanto, sem noção do que fez para chegar a essa condição de sabedoria, sábia e desbocadamente como qualquer velho, mandará todo mundo à merda.
Não, não esqueci da adolescência. Deixei por último, de propósito, por ser a idade mais pura.
Na adolescência, não queremos ser bebês, nem crianças, nem adultos e muito menos velhos. Só queremos e conseguimos ser, única, pura e simplesmente, sem noção.

O assento

Forma é conteúdo. A maneira como se fala uma determinada coisa define a reação de quem ouve, até mais do que o significado do que é dito.

- O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água, retire-o e leve-o para fora da aeronave.

A doçura com que a comissária de bordo anuncia essa probabilidade terrivelmente ameaçadora, que todo mundo sabe que pode acontecer e que o fato de o assento ser flutuante ou pesado como uma âncora não faz muita diferença, faz toda a diferença. Ela fala como se estivessem contando uma historinha para dormirmos em paz, quando o natural, pelo que é dito, seria termos insônia ou pesadelos horríveis. Eleva a altas potências o adequadíssimo termo "flutuante". Você se sente como quem vai realmente flutuar. Cadáveres bóiam. Você flutua. E com aquela interpretação, dá pra imaginar a aeronave pousando como um aviãozinho de papel no mar tranquilo, sob um lindo céu azul. Eu, junto com mais de cem passageiros, nos espreguiçamos, sonolentos como quem tira uma soneca na rede, vestimos nossas sungas e biquínis, passamos bronzeador e colocamos sob o braço nossos assentos flutuantes. Uns correm olimpicamente sobre as asas e se jogam fazendo acrobacias no ar, outros saltam direto para a água e nadam como surfistas em busca da melhor onda. Ou alguém imagina que, com aquela delicadeza toda, algo diferente possa acontecer?


Se os passageiros não entram em pânico antes da decolagem não é por se sentirem seguros com os equipamentos da aeronave. Forma é conteúdo. O mérito é da entonação da comissária de bordo.

O contexto

No momento, ele pensa em trocar de prédio. De preferência, para um bairro distante.

Na noite passada, havia comemorado mais uma etapa vencida na relação com sua namorada. Era uma conseqüência da etapa anterior, em que já podia dizer as mais pesadas bobagens no ouvido dela, enquanto trepavam. Quando ela começou a responder com baixarias que por pouco não o tiraram da concentração, percebeu que colocar no lugar do filme cult dos sábados à noite um pornô de quinta categoria seria absolutamente natural.

Ligou pra ela no final da tarde e disse para chegar às nove, pois receberia a visita de um velho amigo de infância que estava de passagem pela cidade. Matariam as saudades e depois o amigo viajaria de volta à cidade natal dos dois. E assim foi. Quer dizer, mais ou menos.

O amigo acabou saindo mais cedo, para não pegar trânsito até o aeroporto. Ele aproveitou, então, para os preparativos da noite. Olhou a programação do pay-per-view. Às dez começaria um pornô perfeito. Prometia de tudo e, principalmente, cenas curtas. É meu dia de sorte, pensou, lembrando do desastre que foi essa fase com a última namorada. As cenas eram infinitas e, se estimularam alguma coisa, foi o sono dela. A brochada dele foi a última coisa que ela viu antes de dormir profundamente. Aliás, foi a última coisa que ela viu dele, literalmente.

A namorada pensou em chegar um pouco antes das nove, para conhecer o amigo de infância. Era quase que como conhecer a primeira pessoa da família dele - e ao pensar isso se deu conta, em um lapso de romantismo, que aquele era um sinal de que aquela história tinha algo mais. Sorria sozinha enquanto isso passava por sua cabeça e atravessava o corredor até a porta do apartamento. Mas seu sorriso foi diminuindo quando começou a passar por seus ouvidos os gritos do namorado, que atravessaram a porta do apartamento e a atingiram violentamente. Incrédula, arrastou-se por mais uns metros. No lugar do sorriso, uma expressão de horror e espanto. No lugar da fantasia romântica, imagens surpreendentes. Ela não sabe até agora de onde tirou forças para correr de volta para o carro e dali para casa, sem causar um grave acidente de trânsito.

Voltando um pouco.
Ele ligou para a operadora de TV. Primeiro, ouviu a voz gravada de um homem.

- Bem vindo a NTV. Se você tem problema técnico, digite um, se quer comprar um filme, digite dois, se...

Ele digitou logo o dois para encurtar o assunto. Foi quando entrou outro atendimento automático, desta vez com uma voz feminina.

- Certo. Você quer comprar um filme. É isso mesmo? Se é isso mesmo, diga sim, se não, diga...

Ele disse sim. Como seu humor ainda estava influenciado diretamente pela excitação do porvir, o sim foi educado e firme. Sentiu-se dizendo o solene sim de um casamento.

- Não entendi, disse a gravação do outro lado.
Aquele casamento parece que não daria certo.

- Sim! Quase gritou.

- Certo. Você não quer comprar o filme.

- Eu quero!

- Desculpe. Opção inválida. Se você não quer comprar um filme, por que ligou para a NTV? Diga: problema técnico ou pay-per-view ou outro assunto.

- Pay-per-view.

- Pausadamente, por favor.

- Pay...

- Não entendi.

- Pay-per-view! Agora gritou mesmo.

- Certo. Você mudou de idéia e agora quer um filme. Diga agora o canal.

- 169.

- Certo.

- Milagre, ela ouviu!

- Opção inválida.

- Não, não, desculpe!

- Ah, tá. Diga agora o filme.

-Puta merda. Tem que dizer o nome? Não pode ser o horário?

- Opção inválida.

- O filme das dez.

- Opção inválida.

- O diretor, a atriz principal...

- Opção inválida. O nome do filme, por favor. Seu tempo está se esgotando.

- (Susurrando) Põe...

- Não entendi. Repita, por favor.

- Põe no...

- Não enten...

- (Falando grosso) Põe no meu rabinho!

- Pausadamente, por favor.

- (Falando grosso e alto) Põe no meu rabinho!

- Pau...

- (Falando grosso e enlouquecidamente alto) Põe... no meu... rabinho! Que caralho!

- Certo. Você escolheu o filme Põe no meu rabinho. Agora diga: é Põe no meu rabinho 1 ou Põe no meu rabinho 2?

Não se conteve e soltou um longo grito de desespero.

Mas vá explicar aos vizinhos e à namorada que foi mesmo de desespero...

Tortura

Você conhece algo que tenha seguido adiante depois de alguns comentários como estes? "Vamos manter o contato". "Vamos amadurecer a ideia". "Deixa que eu te ligo". Pra que isso? De onde vem a necessidade de enrolar? Pena? Medo? Ou uma leve queda para a tortura?

- Vem, meu bem, me chupa toda!
- Vamos manter o contato…
- Sim, lógico, contato total! Chupa logo!
- Vamos amadurecer a ideia.
- …
- Deixa que eu te ligo.
A mulher se veste em 5 segundos (comprovadamente, esta é a única situação em que isso ocorre) e, sem o menor medo ou pena, sem se virar, já na rua, grita:
- Deixa que eu te ligo o caralho!

Ou o cara, já apelando pra oração:

- Ó, Senhor, me conceda a graça de conseguir esse emprego! Sessenta anos, deprimido e desempregado, é demais!
- Vamos manter o contato.
- Ó, meu Deus, estou fazendo contato com o Senhor! Aleluia, Senhor. Eu sabia! E então, o que eu preciso fazer?
- Vamos amadurecer a ideia.
- O q… que, Senhor?
- Deixa que eu te ligo.

O sonho

A mulher resolve, então, procurar a terapia. Foi a gota d'água. Aliás, uma goteira. Acontecia todo o dia. Melhor, toda a noite. Sonhos eróticos incríveis. Com o marido. Saía de um filme com o Judd Law e sonhava que dava pro marido! Pegava pilhas de DVDs com os galãs mais bonitos e sexys do planeta e pimba! Sonhava com trepadas cinematográficas com o marido. Era motivo de chacota nas conversas com as amigas. Ui, hoje eu sonhei com o Brad Pitt provocava uma, fazendo bocas de Angelina Jolie. E eu passei a noite dando pro Benício Del Toro, toreava a outra. E você, como foi a noite com o Jorge Antônio? A terapeuta quis saber como estava a vida sexual do casal. Nada. Transavam só nos sonhos dela. É isso, sentenciou. Transe com o marido que os sonhos voltarão a ser fantasias mais interessantes. Naquela noite, encarou firme todo o jogo na TV ao lado do Jorge Antônio, pra não dar chance para qualquer desculpa. Tomou cerveja junto e arrastou o cara pra cama sob olhares desconfiados. E pimpa e pimpa. Deu logo duas pra garantir. Afinal, como disse o comentarista, um a zero era resultado perigoso. No outro dia, o marido continuava olhando desconfiado.
- O que foi?
- Desde quando você gosta de futebol?
- Só porque eu fiquei assistindo ontem?
- Não, porque você passou a noite dizendo, "vai, mete no fundo, aí, isso, não, não tem impedimento, mete logo… Fabinho Cusparada!?
Ela sorriu.
- Nada não. Foi só um lance do jogo de ontem.
Fabinho Cusparada… Ainda não dava pra contar pras amigas. Mas já era um começo.

As lágrimas

Tudo certo, no dia errado. Ele sai com os amigos pelo menos quatro noites por semana e não consegue nada. Maré baixíssima. E de repente, em um lugar inesperado, num momento terrível, acontece. Gostosa, perfeita, deusa, diaba. Lado a lado com ele, no engarrafamento. Ela olha uma, duas, três vezes. Sorri. Ele olha pra ela, olha pro outro lado pra ver se o Javier Barden por acaso veio passar uns dias no Brasil e também está engarrafado, numa BMW conversível reluzente, sorrindo pra ela. Não, é com ele mesmo. Ele se remexe, inquieto. Putaqueopariu! Ela fecha o vidro. Ufa! É miragem mesmo. De repente, o vidro fica embaçado. Aquela boca joliniana é a responsável, com uma baforada intrigante. Começam a aparecer números. Começa com 9. Putaqueopariu! É o celular dela! Ele se remexe, inquieto. Pega seu aparelho e anota, freneticamente. E agora? Justo hoje? Liga. Desliga. Ela liga. Oi? Tudo bem? Esse trânsito dá uma vontade de deixar tudo pra trás e ir pra um lugar qualquer… fazer nada… ou tudo… Oi. Tá me ouvindo? Ele se remexe, inquieto. Hoje? Agora… Agora? Já… E o carro dela pisca pro dele. Pra esquerda. Ela toma a dianteira, como se dissesse: eu entro primeiro, depois você. Putaqueopariu! Justo hoje? Mas não tem jeito. Ele se remexe, inquieto com aquela dor terrível e desvia a rota que o levaria a uma consulta para tratar de uma hemorroida que o inferniza há vários dias. Supera, pensa, supera. É só uma dor lancinante no cú. Quando transar, passa. E vai, inventando mais uma dezenas de frases de auto ajuda. Não desista de seu caminho, mesmo que não consiga andar de tanta dor no cú. O caminho leva pra casa dela. O destino está em suas mãos e foda-se o cú, conclui, de forma quase premonitória. Chegam e em poucos segundos estão nus, numa cama imensa. Ela é louca e enlouquecedora. Faz coisas incríveis. Um verdadeiro Cirque du Soleil do sexo. E pouco antes do gran finale, ele quase esquecendo que tinha cú, a vê abrindo em câmera lenta a gaveta do criado mudo e instantes depois, mais mudo que o criado mudo, lembra que tem, sim, um cú. Com hemorroida e agora um vibrador GG até o talo. Ela chega ao êxtase e ele às estrelas. De outro sistema solar. Ela deita-se ao seu lado e relaxa. Ele pensa: caixão ou cremado? Cinco minutos depois ela acorda e olha seus olhos. E diz, com a sinceridade que ele nunca gostaria de ter ouvido de uma mulher: agora me apaixonei… essas lágrimas… que sensível... que lindinho… fofo, me apaixonei… quero mais, muito mais, a tarde toda… enquanto apalpa a cama em busca da minha nave espacial.

Mais respeito

Por que algumas coisas do passado provocam tanto riso quando falamos delas nos momentos de nostalgia? Lembra do DKV? Kkkkkkkk! E do kichute? Kkkkkkk. Camisa volta ao mundo Kkkkkkkk galocha kkkkkkk e lágrimas nos olhos.
Um amigo tem uma teoria. O riso é um alerta do presente. Não está satisfeito? Quer voltar, é? Vai ter que jogar com kichute!
Não sei. Ainda não entendo o motivo da graça.
Imagine o lançamento do DKV. Um pano vermelho é retirado de cima do carro, revelando a novidade. E toda a platéia: Kkkkkkkkkk! Absurdo. O DKV, o kichute, a galocha e até a camisa volta ao mundo foram coisas sérias, gente! (Se rir, dou porrada). Ou você se imagina às gargalhadas, no futuro, ao lembrar do Kia Soul?
Lembra do iPad, aquele trambolho? Você se imagina dizendo isso? Mas dirá.
Não quero ser desmancha prazer e deixar todo mundo sisudo. Mas o surgimento de uma novidade necessariamente não deveria colocar o que passou no plano do ridículo.
Não. Nem a camisa volta ao mundo.