Satisfaction

O filho adolescente procura o pai para uma conversa séria.
- Pra quando é?
- O quê?
- O bebê, ora!
- Que bebê, pai?
O pai olha bem para o filho.
- Eu logo vi…
- O quê, pai?
- Esses olhos vermelhos…
- Não, pai, eu não fumei nada, não.
E antes que o pai levantasse outras suspeitas, foi logo dizendo que seu problema era ter um estilo único, que não se encaixava nas tribos e que isso o deixava isolado, excluído, deslocado.
O pai argumentou que ele deveria se orgulhar de ter um estilo próprio, de não se deixar levar pela influência dos outros, enfim, todo aquele discurso politicamente correto em que se enquadrava.
- Pai, qual era sua banda favorita?
- Ainda é. Roling Stones, por quê?
- Se eles fizessem um show agora, com músicas totalmente inéditas e não tocassem nenhuma das antigas…
- Nenhuma? Nem com novo arranjo?
- Nenhuma.
- Decepcionante.
- E você e a turma toda pediria…
- Satisfaction!
- Que você já ouviu…
- Um milhão de vezes. Tá, mais o que isso tem a ver com nosso papo sério?
- É um sofá confortável, pai.
- Não tô entendendo nada.
- Daqueles que parece que a gente tá no colo.
- Boiei…
- Ouvir sucessos, andar em tribos, são sofás confortáveis. Todo mundo precisa do conforto e da segurança das coisas aceitas, mesmo que seja só por um grupo, mesmo que você não consiga passar perto de um ímã de tanto metal pelo corpo ou que não possa ver um filme do Charles Chaplin para não perder a cara entediada. O problema é com os outros ou é comigo? E não me venha com conselhos prontos e politicamente corretos!
- Você assiste Charles Chaplin?
- Tenho tudo.
- Tudo?
- Tudo.
- Como conseguiu?
- Internet.
- E eu quebrando a cabeça pra achar os primeiros curtas…
- Vamos ver juntos?
- Fechado. Mas antes senta aqui no sofá.
- Pra quê?
- Tá confortável?
- Tô.
- Então ouve só essa nova versão de Satisfaction...

Vai dar merda

- Vai dar merda.

Era chegada a hora. Ele sabia. Aos 89 anos, cego, surdo, mudo, só o que sentia era a morte a poucos segundos. Podia ouvir seus passos, ver sua sombra, falar com ela.

- Vai dar merda, disse à morte. Encarar a verdade é uma merda. Ou tenho razão e tudo termina aqui, pra sempre... Que merda... Ou Ele existe. E o sermão vai ser eterno. Que merda!