A receita

Não era de hoje que a mulher insistia para ele ir ao médico. Do jeito que andava estressado, os 53 anos e o enfarto disputavam para ver qual deles chegaria primeiro. Mas foi uma insistente alergia no rosto e não uma dor no braço esquerdo que o levou a marcar a consulta. “Baixa imunidade”, constatou o médico. Diante do inquestionável índice elevado de colesterol e antevendo uma daquelas mijadas cientificamente sustentadas, tentou a estratégia da humildade, absolutamente falsa, ao mostrar-se consciente de seus deveres. “Preciso voltar a fazer exercício, doutor”. Mas a receita o deixou surpreso: “Você precisa é de mais prazer. Se o exercício for prazeroso, faça. Se não, o melhor para recarregar as energias pode ser apenas deitar no sofá com os pés pra cima e esquecer as preocupações. E em vez de ler sobre economia quando for ao banheiro, ache aquela coleção antiga da Playboy"... Saiu do consultório seriamente pensando em iniciar uma campanha pelo prêmio Nobel de medicina para seu novo ídolo. Chegou em casa já com outra cara e diante do “e aí?” da mulher, adolescentemente resumiu o tratamento, a seu modo:

- Tá liberada a punheta e o futebol na TV!

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A propósito, a mulher, além de pensar seriamente em iniciar uma campanha pela cassação do diploma do médico, ainda tentou apelar para a razão com um discurso denso, feito antes que o tratamento iniciasse, domingo, às quatro da tarde, ao vivo.

- Não sei qual é a graça de acompanhar um campeonato de quase um ano, partida por partida, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Não entendo que emoção pode haver diante de uma fatalidade tão anunciada: perdendo ou ganhando, nada dura. Logo vem outro jogo e outro campeonato. Que tanta emoção existe pra tanto jogo? Se perde, fica ainda mais deprimido. Se ganha, vibra e goza da cara do outro, com uma felicidade que parece que vai durar a eternidade e não passa de um dia...

Ele interrompeu, sério e filosófico:

- E não é assim a vida?

A frase abalou o discurso da mulher. E não é assim a vida? Nada dura. O que vale é o momento. E em rápidos momentos a gente ganha, perde, fica triste, vibra, recomeça, até morrer, no jogo final. Ele percebeu o efeito do que dissera. Ela ficou muda. Ele quase riu. Pois não era nada daquilo, não. Foi só uma frase improvisada pra ver se ela parava de falar. Ele não sabe e nem quer entender porque gosta de futebol. Só sabe que é bom pra caralho. E pensou: “Por falar nisso, onde será que escondi minhas Playboys”?

Um comentário:

Jonathan disse...

Mt legal!!! Seu texto é muito agradável, muito divertido!!!