A memória

O cara tem uma memória impressionante. Agora, que anda precisando, ninguém aposta mais nada com ele. Mas já ganhou algum dinheiro com isso. Placar da grande decisão de 1970? Essa até você? Tem certeza? Quer apostar? Placar da final da Copa Catarinense de Futebol de Botão de 1970?

O problema era quando o passado não obedecia a sua vontade. Isso ocorria estranha e perigosamente pela manhã. Sem muita explicação lógica a programação era temática: sexo. Quando chegou lá em casa, tarde da noite, me contou que hoje acordou com a campainha. Abriu a porta e era Malu, sua ex, que ele chamava de Loba Má, camiseta molhada, pedindo pra entrar e come-lo. Esfregou os olhos e era a mulher do vizinho perguntando pela Marli, com quem casou há cinco anos para mudar de vida. E ele ali, na frente da mulher do Sérgio, já ficando de pau duro, começando a armar o pijama. Baixa, porra. Baixa, porra.

Voltou para a cama e ao deitar no travesseiro macio, viu a centímetros de sua boca a incomparável bunda de Cíntia, outra ex. O cutucão da Marli na sua bunda quase o acordou enquanto amassava feito um gato o travesseiro, devidamente babado.

- Não ta esquecendo de nada?

- Claro que não, claro que não, como poderia? - disse lentamente, ainda com a bunda da Cíntia na boca.

Cacete! Com tantas lembranças exuberantes, esqueceu do aniversário da Marli. Imperdoável, ainda mais para ele. Como estava atrasado, seu plano para remendar era mandar algo durante o dia e ganhar tempo para passar em algum shopping antes de chegar, à noite. Na despedida, preparou o terreno:

- Tenho uma reunião e talvez chegue mais tarde.

Antes de ir para o trabalho comprou às pressas um batom vermelho e um cartão. Quando pegou a caneta para escrever, como que vinda de um relâmpago, Fabinha, a ex mais recente, começou a massagear lentamente seu pau sobre as calças. Se alguém chamasse aquilo de sexo oral não seria atendido. Pior, seria processado por calúnia e difamação. Enquanto escrevia, sugado pela lembrança de Fabinha, sorria.

Quando voltou para casa, mais tarde como o combinado, com um infalível colar de pérolas verdadeiras e uma sedutora garrafa de vinho tinto, encontrou duas malas na rua. Sobre uma delas, um bilhete. “Endereço errado. Vá com as malas para lá. Adeus, Marli”. Não entendeu nada. Sobre a outra, o cartão que enviara. Começava com “Fabinha”, terminava com “à noite tem mais... do teu Pirulitão” e no meio tinha tanta bandalheira que o melhor era esquecer. Como se pudesse.

Um comentário:

Anônimo disse...

Cláudio, cada vez melhor, cada vez melhor.

Beto Soares