O assento

Forma é conteúdo. A maneira como se fala uma determinada coisa define a reação de quem ouve, até mais do que o significado do que é dito.

- O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água, retire-o e leve-o para fora da aeronave.

A doçura com que as aeromoças anunciam essa probabilidade terrivelmente ameaçadora, que todo mundo sabe que pode acontecer e que o fato de o assento ser flutuante ou pesado como uma âncora não faz muita diferença, faz toda a diferença. Elas falam como se estivessem contando uma historinha para dormirmos em paz, quando o natural, pelo que é dito, seria termos insônias ou pesadelos horríveis. Elevam a altas potências o adequadíssimo termo "flutuante". Você se sente como quem vai realmente flutuar. Cadáveres bóiam. Você flutua. E com aquela interpretação, dá pra imaginar a aeronave pousando como um aviãozinho de papel no mar tranquilo, sob um lindo céu azul. Eu, junto com mais de cem passageiros, nos espreguiçamos, sonolentos como quem tira uma soneca na rede, vestimos nossas sungas e biquínis, passamos bronzeador e colocamos sob o braço nossos assentos flutuantes. Uns correm olimpicamente sobre as asas e se jogam fazendo acrobacias no ar, outros saltam direto para a água e nadam como surfistas em busca da melhor onda. Ou alguém imagina que, com aquela delicadeza toda, algo diferente possa acontecer?

Se os passageiros não entram em pânico antes da decolagem não é por se sentirem seguros com os equipamentos da aeronave. Forma é conteúdo. O mérito é da entonação das aeromoças.

A receita

Não era de hoje que a mulher insistia para ele ir ao médico. Do jeito que andava estressado, os 53 anos e o enfarto disputavam para ver qual deles chegaria primeiro. Mas foi uma insistente alergia no rosto e não uma dor no braço esquerdo que o levou a marcar a consulta. “Baixa imunidade”, constatou o médico. Diante do inquestionável índice elevado de colesterol e antevendo uma daquelas mijadas cientificamente sustentadas, tentou a estratégia da humildade, absolutamente falsa, ao mostrar-se consciente de seus deveres. “Preciso voltar a fazer exercício, doutor”. Mas a receita o deixou surpreso: “Você precisa é de mais prazer. Se o exercício for prazeroso, faça. Se não, o melhor para recarregar as energias pode ser apenas deitar no sofá com os pés pra cima e esquecer as preocupações. E em vez de ler sobre economia quando for ao banheiro, ache aquela coleção antiga da Playboy"... Saiu do consultório seriamente pensando em iniciar uma campanha pelo prêmio Nobel de medicina para seu novo ídolo. Chegou em casa já com outra cara e diante do “e aí?” da mulher, adolescentemente resumiu o tratamento, a seu modo:

- Tá liberada a punheta e o futebol na TV!

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A propósito, a mulher, além de pensar seriamente em iniciar uma campanha pela cassação do diploma do médico, ainda tentou apelar para a razão com um discurso denso, feito antes que o tratamento iniciasse, domingo, às quatro da tarde, ao vivo.

- Não sei qual é a graça de acompanhar um campeonato de quase um ano, partida por partida, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Não entendo que emoção pode haver diante de uma fatalidade tão anunciada: perdendo ou ganhando, nada dura. Logo vem outro jogo e outro campeonato. Que tanta emoção existe pra tanto jogo? Se perde, fica ainda mais deprimido. Se ganha, vibra e goza da cara do outro, com uma felicidade que parece que vai durar a eternidade e não passa de um dia...

Ele interrompeu, sério e filosófico:

- E não é assim a vida?

A frase abalou o discurso da mulher. E não é assim a vida? Nada dura. O que vale é o momento. E em rápidos momentos a gente ganha, perde, fica triste, vibra, recomeça, até morrer, no jogo final. Ele percebeu o efeito do que dissera. Ela ficou muda. Ele quase riu. Pois não era nada daquilo, não. Foi só uma frase improvisada pra ver se ela parava de falar. Ele não sabe e nem quer entender porque gosta de futebol. Só sabe que é bom pra caralho. E pensou: “Por falar nisso, onde será que escondi minhas Playboys”?

A memória

O cara tem uma memória impressionante. Agora, que anda precisando, ninguém aposta mais nada com ele. Mas já ganhou algum dinheiro com isso. Placar da grande decisão de 1970? Essa até você? Tem certeza? Quer apostar? Placar da final da Copa Catarinense de Futebol de Botão de 1970?

O problema era quando o passado não obedecia a sua vontade. Isso ocorria estranha e perigosamente pela manhã. Sem muita explicação lógica a programação era temática: sexo. Quando chegou lá em casa, tarde da noite, me contou que hoje acordou com a campainha. Abriu a porta e era Malu, sua ex, que ele chamava de Loba Má, camiseta molhada, pedindo pra entrar e come-lo. Esfregou os olhos e era a mulher do vizinho perguntando pela Marli, com quem casou há cinco anos para mudar de vida. E ele ali, na frente da mulher do Sérgio, já ficando de pau duro, começando a armar o pijama. Baixa, porra. Baixa, porra.

Voltou para a cama e ao deitar no travesseiro macio, viu a centímetros de sua boca a incomparável bunda de Cíntia, outra ex. O cutucão da Marli na sua bunda quase o acordou enquanto amassava feito um gato o travesseiro, devidamente babado.

- Não ta esquecendo de nada?

- Claro que não, claro que não, como poderia? - disse lentamente, ainda com a bunda da Cíntia na boca.

Cacete! Com tantas lembranças exuberantes, esqueceu do aniversário da Marli. Imperdoável, ainda mais para ele. Como estava atrasado, seu plano para remendar era mandar algo durante o dia e ganhar tempo para passar em algum shopping antes de chegar, à noite. Na despedida, preparou o terreno:

- Tenho uma reunião e talvez chegue mais tarde.

Antes de ir para o trabalho comprou às pressas um batom vermelho e um cartão. Quando pegou a caneta para escrever, como que vinda de um relâmpago, Fabinha, a ex mais recente, começou a massagear lentamente seu pau sobre as calças. Se alguém chamasse aquilo de sexo oral não seria atendido. Pior, seria processado por calúnia e difamação. Enquanto escrevia, sugado pela lembrança de Fabinha, sorria.

Quando voltou para casa, mais tarde como o combinado, com um infalível colar de pérolas verdadeiras e uma sedutora garrafa de vinho tinto, encontrou duas malas na rua. Sobre uma delas, um bilhete. “Endereço errado. Vá com as malas para lá. Adeus, Marli”. Não entendeu nada. Sobre a outra, o cartão que enviara. Começava com “Fabinha”, terminava com “à noite tem mais... do teu Pirulitão” e no meio tinha tanta bandalheira que o melhor era esquecer. Como se pudesse.