A crueldade

Ele era um alto executivo de uma empresa multinacional e, como tantos colegas, tinha uma vida paralela, uma identidade secreta. Mas não exatamente para o sexo, como os outros. Despido das roupas de grife e das decisões que interferiam em mercados do mundo, todo final de tarde ele se dirigia a um estúdio para dublar desenhos infantis. Durante seis horas corrompia, demitia, ficava mais rico. E tinha a hora de ser um ursinho fofo, um ratinho dócil. Acontece que ele se apegou de forma inesperada à última personagem, um brinquedo de plástico que ganhava vida. Seu analista até tentou fazer uma relação com a vida que levava, como se a personagem simbolizasse uma saída inconsciente para aquela superficialidade toda. Bobagem, dizia ele ao colega, que uma vez por mês juntava sete anões travestis para surubas fabulosas. Quem disse que corromper, foder com concorrentes e subalternos, e ainda por cima ganhar dinheiro, são coisas superficiais? São atitudes complexas, que exigem uma imensa capacidade de escapar das culpas. E das investigações do fisco. Ele fazia aquilo tudo por puro prazer. Assim como a dublagem. Rejeitava completamente também a tese da válvula de escape. Gostava de ver os outros imitando sua voz. Prazer e poder. E o amigo, que já desistira de fazer análise, com aquele papo todo de complexo de Branca de Neve, concordava totalmente. Não importava como, nem com quem. Prazer e poder. O tal boneco de plástico virou mania nacional e passou a exigir mais tempo de estúdio. A paixão era tanta – quase tão grande quanto seu ego – que largou tudo para viver aquele grande amor. Até porque dinheiro não lhe faltaria. A vida parecia se encaminhar para a perfeição. Até o dia em que se encontrou com o autor da história do boneco de plástico. Sem culpa, com o poder que me concedi, cara a cara, olho no olho, lhe disse: quem escreve essa porra sou eu, estou cagando pro sucesso desse boneco de merda e sua dublagem maravilhosa, e de agora em diante ele é só um boneco, imóvel e mudo. Branco como esta tela estava há pouco, perguntou por sua paixão sincera pela personagem.

- Fui eu. Já ouviu falar das armadilhas do amor? Tudo calculado.

Desafiador e crítico:

- E essa combinação ridícula de executivo e dublador?

- Tentativa frustrada de humanizá-lo.

Racional:

- Por que você não deu razão ao analista? A história poderia ter tomado outro rumo!

- Não gosto de analistas. E você não merecia, depois de esconder dele que o brinquedo de plástico só ganhava vida para torturar sadicamente ursinhos fofos e ratinhos dóceis.

- E os amigos, o lance das identidades secretas e do sexo sem limites?

- Bem, isso era real. Mas só. O resto era ficção, inclusive seu dinheiro.

O cara desabou, imóvel e mudo. E antes de morrer, ainda teve forças para a derradeira e bíblica tentativa, a culpa: se foi você quem me criou... por que... por que me abandou? Com cruel prazer, dei a história por terminada.