A sala de espera

Disse tudo o que ensaiara em meses de insônias. Inclusive com o gran finale, quando de uma só vez mandou dono e chefe se foderem. No mesmo dia, com o mesmo ímpeto com que chutou pra cima o insuportável emprego estável, com ótimo salário, alugou uma sala em um prédio executivo. A sala vazia era a referência ideal para sua cabeça. Sem falar nada em casa, cumpria seu horário na sala, para onde levou apenas uma cadeira de praia, um livro e um mp3 com músicas antigas.
Após três dias, por engano, uma pessoa bateu à porta. Pediu para entrar, ficou 15 minutos em silêncio e saiu com uma leve despedida gestual. No dia seguinte foram duas pessoas, em momentos alternados e sem qualquer explicação. Bateram, entraram, ficaram 15 minutos e saíram, silenciosamente. Como no outro dia vieram seis, do nada, resolveu levar algumas almofadas e mais algumas cadeiras de praia. O convívio era mímico. No máximo trocavam sorrisos que combinavam com a sala vazia.
Depois de um mês, com o bolso vazio, precisou pedir o emprego de volta. Dono e chefe deram um bom desconto para sua reação intempestiva. E também no salário, que ficou pela metade. A mulher não ficou sabendo de nada. Só da contenção de gastos da empresa.
Mesmo apertado, mantém a sala alugada. E ainda paga uma secretária para organizar os grupos e marcar horários. Já tem lista de espera. Todos entram, esperam, não acontece nada, trocam sorrisos vazios, não falam nada, não reclamam de nada, saem e voltam para suas vidas. Inclusive ele, que agora é apenas mais um frequentador da sala de espera. Por 15 minutos.

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