A questão

Naquela segunda-feira, o início de uma nova campanha publicitária mudaria sua vida. Seu coração foi mais rápido que o olhar rotineiro para o outdoor, no rotineiro caminho do ônibus, e determinou a paixão avassaladora. Se você não sabe, aquela acelerada que o coração dá quando nos apaixonamos é justamente para chegar à frente na competição com olhares rotineiros, pensamentos racionais e outros afins. Feito o parênteses científico, sigo a história. O rosto não era daquelas modelos perfeitas. Tinha sardas no pequeno nariz, sorriso contido, brilho no olhar, mas o que pegou mesmo foi seu jeito meigo de vender materiais de construção. Tudo isso somado a sua costumeira depressão de segunda, arrebatou-lhe completamente. Afinal, a melancolia é um convite a esse tipo paixão. Não importa como aconteceu, mas o fato é que ele descobriu que ela era de sua cidade e arrumou um jeito de usar sua profissão de vendedor de seguros para chegar mais perto da moça. Para resumir, ele conseguiu não apenas conhecê-la e vender-lhe um bom seguro, como conquistou seu coração. Não me pergunte como. Ele feio, meia idade e corpo desajeitado. Ela linda, jovem e, até então, casada com um modelo. Foram morar juntos, a jovem, ele, sua paixão e uma questão: quando iria acordar? Quando a esmola é muito grande, o santo desconfia. Aquilo lhe parecia demais pra ser verdade. Não foi uma nem duas vezes que ela, com ciúmes, perguntava desconfiada de onde vinham aquelas marcas rochas no corpo. Para ela, chupões. Na versão dele, esbarrões. Ela nunca acreditaria que eram resultados dos beliscões que ele mesmo se dava para ver se não estava sonhando. Quando iria acordar? É muita esmola! Depois de um tempo, a surpresa novamente marcou sua vida. Em outra segunda-feira qualquer, ao ir buscá-la na agência de modelos, deu de cara com o ex-marido. Queria conversar. Como ela estava atrasada, foram a um bar ali perto. A demora masculina em começar uma conversa para expor sentimentos profundos fez com que boas doses de uísque fossem chamadas para preparar o terreno. Isso não é surpresa. Surpreendente foi que, sob o efeito dos drinques, nada tenha sido tratado sobre a história que envolvia os três. Em compensação – ou por causa disso -, iniciaram uma profunda amizade. E toda a segunda-feira o vendedor de seguros saía mais cedo para ter tempo de alimentar com prazerosas conversas e boas doses de uísque seu encontro com o novo melhor amigo, o ex-marido de sua bela e meiga mulher modelo. Que de nada sabia. E que depois de alguns meses de silêncio e dúvidas cruelmente contidas, explodiu em uma nova e violentíssima reação de ciúmes. Afinal, seu novo amor, depois de chegar com marcas de chupões pelo corpo, agora trazia um indisfarçável cheiro de álcool, feliz da vida e esgotado de assuntos para conversas caseiras, um dos pilares da relação. Sem mais delongas, tão decidida como quando largou o primeiro, deixou o segundo. Primeiro e segundo, mais unidos e amigos do que nunca, somaram suas surpresas à falta de dinheiro – gasto com uísque e chocolate – e foram morar juntos. Agora, só falavam da moça, em porres caseiros e homéricos. O primeiro: como joguei tanta riqueza fora! O segundo: era esmola demais mesmo! A foto mais recente da moça, mais bela do que nunca, iniciou uma nova campanha publicitária, ironicamente para a companhia de seguros do segundo ex. Se tivesse sido feita com o intuito da vingança, não teria ficado tão lindamente vingativa. Era uma segunda-feira e os homens sentiram o ônibus passar em câmera lenta pelo gigantesco outdoor. Lotados de autopiedade e culpa, viram as primeiras lágrimas desobstruírem seus canais como se estivessem armadas com britadeiras, que abriram caminho para o duplo choro infantil e incontrolável. Sem sucesso, os abraços tentaram o mútuo consolo de soluços inconsoláveis, que vinham sem qualquer constrangimento. Lotado de rotina, sem aparente surpresa diante da cena, o ônibus seguiu em velocidade normal, como fazia todo o dia, entre o centro e o bairro, onde dois homens dividem o mesmo teto com suas paixões e uma questão, que toda a noite deita com eles e os faz ninar.

Nenhum comentário: