Que mar?

Foi paixão à primeira vista. Incontrolável. Ainda mais que a oportunidade podia ser a única. Como todo apaixonado, não pensou duas vezes antes de fazer uma besteira. E foi falar com ela, que estava sentada na areia, olhando o imenso mar azul.

- Eu também adoro olhar o mar... o cumprimento tentou ser um começo diferente, com um certo ar poético, que revelasse de cara sua sensibilidade e criasse uma identidade com o que certamente ela sentia naquele momento. Sem dúvida isso diminuiria as chances de uma negativa. E o que ele precisava agora era uma simples permissão para sentar-se ao lado dela. “Eu também adoro o mar”, estava convencido, fora um achado. Sem dúvida, um “oi” sofisticado.

- Que mar?

A resposta foi quase inaudível. Mesmo assim, foi como se uma onda gigante batesse violentamente contra sua cara.

- Oi - resignou-se.

- Por quê?

- Eu estava vendo você olhando o mar...

- Que mar?

- À sua frente.

- Você quer dizer o abismo?

Abismado, fez nova tentativa.

- Eu sou o Caio. E você, como se chama?

- Como?

- Como se chama?

- Não, como você pode dizer assim tão fácil quem você é?

- Como assim?

- Eu não sei quem eu sou.

E ele já não sabia o que estava fazendo ali. Tudo desmoronara em segundos. Paixão, beleza, tesão. Mas já estava sentado ao lado dela. E teve que ouvir exatas duas horas e 28 minutos, contados no relógio, sobre sua crise existencial. A cada história trágica que ouvia sentia-se enterrar no chão, exatamente como nossos pés fazem quando ficamos parados à beira da praia, sentindo as ondas e aquela pequena e controlável amostra do que seria estar na areia movediça.

Depois das duas horas e 28 minutos, não contou mais o tempo. Não ouviu mais nada daquele rosário de tristezas. Desligou-se completamente, hipnotizado pelo ir e vir das ondas do mar. Tanto, que nem viu quando a garota levantou-se e partiu, certamente sentindo-se mais leve e até experimentando um certo prazer com o aroma da maresia.

Minutos depois, uma mulher aproxima-se dele.

- Eu também adoro olhar o mar...

- Que mar?

Foi uma fração de segundos até se dar conta do que respondera. O suficiente para vê-la apenas de costas, afastando-se a balançar a cabeça. E uma bunda maravilhosa.

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