A perseguição

Tem uns trinta e poucos anos. Alta, cabelos curtos. Vou segui-la. Uma nuca com pelinhos loiros e uma bela bunda, marcada por uma saia preta justa, justificam a perseguição implacável de uma mulher por quilômetros. Mas há outros atrativos: carrega uma maleta também preta, de couro, usa óculos escuros, tem dedos finos e pés delicados que a levam decidida daquele jeito. Com certeza, para onde bem entender. Pode ser uma executiva tarada. Uau! Trabalhou o dia inteiro, está a caminho de casa para tomar um banho e precisa de alguém pra comer depois. Por isso, vai levar o primeiro que encontrar por trás - sim, a escolha deve ser aleatória, arriscada, irracional. Ai, ai, ai, daqui a pouco ela se vira, repentinamente, olha direto pra mim e diz: “rua tal, número tal, daqui a meia hora”. E eu vou ter que decorar a rua e o número. Putz, sou ruim pra caralho nessas coisas. Não, não, ela nem vai se virar. Vai só dizer: “pode continuar me seguindo”. E com aquela voz rouca: “não para, não para”. Nossa! E quem vai querer parar?! Continuo minha perseguição à espera de um sinal. Você aposta que ela vai se virar ou não? Eu aposto que não. Ela entra no banco. Deve retirar uma grana. A festa vai ser boa. Entro ou espero? Tenho que entrar. É uma perseguição implacável e não posso perder um lance. Talvez o primeiro sinal seja dado na fila do caixa. Ela vai roçar sua mão, discretamente, no meu pau. Chegamos à fila. Meu Deus, estou de pau duro. Calma, cara. Se é muita excitação ao mesmo tempo, ok, esquece a aposta e vê se não faz escândalo. Ela chega ao caixa. Em seguida, o caixa ao lado me chama. Passo lentamente por ela e sinto seu perfume. O funcionário à sua frente arregala os olhos pra ela. O que será que ela disse? Será que convidou o filho da puta e me deixou na mão? Ou será que o negócio dela é a três? Por mim, eu encaro. Impaciente, o caixa à minha frente me pergunta o que, afinal, eu quero. Cacete, o que eu digo? Nem conta eu tenho nesse banco. Vou inventar qualquer coisa. Mas o quê? Antes que eu fale uma bobagem qualquer, toca o alarme. Graças a Deus. Todo mundo se vira pra ela. Mais de três eu não topo. Mas não é nada disso, ela tem uma arma na mão e atira pra cima. Dá um salto e me pega pelo braço, ficando atrás de mim, com a arma apontada pra minha cabeça. Grita, sem a voz rouca: “se alguém se mexer, leva chumbo, leva chumbo”! E quem vai duvidar?! Pega rapidamente um pouco de grana do caixa apavorado. Saímos do banco. Por favor, não se mexam. Deixem que ela me leve. Afinal, ela ia me levar de qualquer jeito mesmo. Entramos em seu carro. Arrancamos a toda velocidade. A polícia chega. Começa a perseguição pelas avenidas movimentadas que se abrem para nós. Ela não fala mais nada. Aciona uma trilha sonora. Tudo parece correr no ritmo da música. O carro da polícia ora se aproxima, ora se distancia. O que será que eles estão pensando neste exato instante, enquanto nos perseguem? O que será que ela pensa? Onde isso tudo vai parar? E quem quer parar?! Não para, não para! Estou ficando de pau duro. 

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