O estalo

O humor é um soco que a vida revida na morte. E a morte tinha chegado para o marido da Cleusa. Devair, o Deva, foi seu único homem. Casou cedo. Agora tinha 46. O falecido estacionara no caixão aos 60. Para ela, a vida tinha sido um caminho pra morte. Aquele lugar, o trabalho, a casa, era uma morte que vinha, já estando. Uma visita que não se ia. Não era uma coisa, a vida, ponto, depois a outra, a morte, ponto final. Eram coisas embaralhadas, com uma vantagem nítida pra morte. Ela pensava essas coisas, vendo aquela gente chorando. E ela com uma doideira que tinha chegado, forasteira. Era uma vontade de rir desvairada. Era um estalo: estava livre do Devair, imprestável, que falava com ela tanto quanto agora. A vida após a morte ela não sabia se existia, mais o estalo, ah, isso existia. Chorar, se chora quando se tem vontade. Ou quando mentimos tanto que acreditamos na mentira que nos mentimos. O que não ocorre quando há o estalo. E a Cleusa ali, consigo e o estalo, louca pra rir no meio do enterro do marido. Estourando, vendo os algodões no nariz, o terno do casamento - imaginando se ele já não tinha casado com aqueles algodões no nariz e se não vivera sempre com eles. Estourando, com os motivos de longos anos mortos, sufocando-a naquela sala, como se também usasse algodões no nariz e só uma boa risada tivesse o poder de explodir tudo. Estourando, até que estourou. E riu, numa pequena explosão, que gerou outra, maior, e mais outra e uma seqüência de gargalhadas violentamente altas. Cleusa saiu segurando a barriga, rindo sem parar, diante dos olhares incrédulos dos entes queridos. Não havia mais nada a fazer ali. Saiu, chorando de rir, para a cidade e para um ônibus e para uma outra cidade. Na viagem, um pouquinho antes de dormir, cansada de tanto rir, só teve tempo de mais um pensamento: que a morte, agora, quando viesse, que fosse num único soco, que desse conta de nocauteá-la. Que esse negócio de vir vindo, de ir chegando, de se aproximar já estando, de bater e aos poucos matando, nunca mais. Nunca mais.

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