Natureza

Até hoje poucos acreditam nesta história e em como algo ridiculamente insólito jogou um cético consciente ao outro extremo. Certamente, por serem igualmente céticos. O certo é que foi com ele – e não com quem ouve a história – que aconteceu aquele fato inusitado, que mudou sua vida. Ou melhor, praticamente determinou o seu fim. Tudo começou quando caminhava em seu bairro, como fazia todo o dia. Um lugar com ruas sem calçamento, com areia fina devido à proximidade com o mar. Naquela manhã, estranhou o olhar mais demorado e, sem nenhuma dúvida, dirigido exclusivamente para ele, daquele bicho pousado sobre um poste. Um urubu. Foi uma sensação ruim, mas passou. No segundo dia, o urubu estava no chão e, meio aos pulos, o acompanhou uns 20 metros, ao seu lado, olhando desafiadoramente para ele. Um frio passou por sua espinha. O suor ficou frio. Naquele dia, ele voltou por outro caminho. Uma frase, repetida como um mantra, tentou apagar aquela terrível sensação. “Foi só uma coincidência, nada mais”. No terceiro, o urubu estava no meio da rua deserta, como a esperá-lo para um duelo. Que ridículo, pensou. Que ridículo sentir medo de um urubu, que só ataca carniças. Seguiu seus passos. Mas quando tentou passar pelo urubu, o bicho colocou-se à sua frente. Quando tentou desviar, o urubu foi para o mesmo lado. Era como se estivessem naqueles momentos cômicos em que duas pessoas vão para o mesmo lado na rua e ficam como que dançando frente a frente, fruto de um mesmo pensamento mantido por uma fração de segundos. O urubu não apenas dançou com ele, como avançou. Não teve mais dúvida. Não era um momento cômico. Era a dança da morte. Se o urubu tinha um pensamento naquele momento, era de morte. Essa era sua natureza. Será que sentiu cheiro de morte? Ele cheirava à morte? O cheiro chega primeiro que a morte, como um prenúncio? Aquele urubu queria carne morta, mas fresca. E era a sua. Ele saiu em disparada de volta para casa. Trancou-se no quarto e lá ficou por horas, dias. A mulher já estava desesperada. O médico fez uma bateria de exames. Estava com a saúde de um jovem, apesar de seus 55 anos. Mas nada o convencia. O laudo da natureza era absoluto e definitivo. Você já soube de algum caso de exame errado? Certamente que sim. Mas já viu algum caso de urubu que se alimentasse de algum animal vivo? Era só esperar. Questão de poucas horas. E em horas mesmo, já sem se alimentar, entrou em coma. Sentiu sua carne sendo picada. Primeiro aos poucos, depois vorazmente. Um pequeno banquete. Pequeno, pois emagrecera muito nos últimos dias. Quando o urubu estava prestes a chegar aos olhos, veio o clarão. Em sua volta, a mulher soluçava e o médico tentava explicar como fora sua salvação. Somente sua falta de consciência fez com que fosse alimentado, para recuperar parte de suas forças. Mas não teve santo que o convencesse de que não estava no purgatório. Morto e grato ao súbito ato de bondade do urubu, por deixar intactos seus olhos para a hora de ver o Senhor.

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