Morte linda

O ônibus urbano deu a partida para seu curto trajeto. A conversa precisava ser objetiva. E foi.
- Você sabia que meu marido morreu antes de ontem?
A pergunta-notícia feita de supetão surpreendeu a colega de funcionalismo público, no banco de trás. Era preciso revirar logo alguma expressão. Olhos viúvos, apontados para ela, exigiam.
- Mas... ele tava doente?
- Coração. Em casa, depois do almoço. Hoje fui dar início às papeladas. É xerox pra cá, xerox pra lá...
- Vai levar meses.
Rápido silêncio e a colega achou que uma notícia melhor talvez mudasse a rota.
- Hoje saiu o contracheque.
Nada. Era só mais uma tragédia. E ambas foram devidamente enfileiradas e abatidas pelo implacável e inusitado humor. Fulminante como a morte.
- Contrachoque, isso sim! Pra receber eu deveria ter pego o marca-passo do meu marido!

No mesmo encontro, houve tempo para mais uma precisa constatação.
- Ele morreu exatamente como o pai, a mãe, um irmão e o tio: dormindo. Morte linda.
- Morte linda.
E na perspectiva do inevitável:
- Eu não deveria ser mulher dele, tinha que ser parente.

(História baseada em um diálogo real)

Nenhum comentário: