Conselho

A bunda era perfeita. Divina, seria mais adequado. Parecia exigir com ela a relação que se tem com um deus. Adora-se à distância, tem-se o desejo de ficar frente a frente – no caso, frente a costas - para conferir se existe mesmo e, se esse momento chegar, não se sabe o que fazer.

Mas pode ser pior. Diante de deus, depois da surpresa inicial, as chances de decepção com ele são muito grandes. “Barbas brancas, hein!” Ou: “Não podia me chamar mais tarde, não”? Diante daquela bunda as chances de decepção são igualmente consideráveis, só que com você. O peso da responsabilidade de seu pau meramente humano dar conta daqueles contornos místicos pode, literalmente, colocar tudo abaixo. E se o fracasso levá-lo a um desejo de morte, vá que deus atenda! Vá que, além de não ter barbas brancas, ele seja um baita gozador – e a história está cheia de indícios de que é. Antes de você reclamar da hora do chamado, ele vai colocar o dedo na boca e dizer: “Psss! Você pediu e, convenhamos, mereceu”!

Quando se trata de admirar divindades, o melhor é fazer exatamente como se deve olhar um deus e como ele deve nos olhar, para que não haja mútua decepção: com a devida distância. E infinita fantasia.

Nenhum comentário: