Para sempre (esboço para uma esquete de teatro)

Mulher sozinha, sentada à beira do caixão onde jaz o marido morto. Faz o sinal da cruz e levanta-se.

- Ah, meu Deus. Tenho piedade de vós. Aturar esta peste por toda eternidade! Só com paciência divina mesmo! Estes cinqüenta anos, pra mim, já pareciam intermináveis! Ou foram 60? Nem lembro mais...
Rapaz bom, honesto, trabalhador... Minha mãe repetia à exaustão. Acho que casei de exausta.
Se alguém me pedisse pra fazer um resumo da minha vida, eu diria: por favor, me peça outra coisa, se eu resumir, minha vida some! Me peça outra coisa, me peça pra inventar uma vida pra minha vida. Cinqüenta, sessenta anos... Sabe o que restou de lembrança desse imprestável? Seu hálito podre, sua unha do pé me cravando de madrugada, seu ronco irritante... Pior, seus peidos assustadores... Acho que dormia de exausta...
Rapaz bom, honesto, trabalhador... Minha mãe me matou no cansaço. Meu pai me levou pro abate. Me deu um beijo. Senti sua marretada na testa. Depois aquela algema de ouro vagabundo... Até que a morte os separe... Pois sim, a morte nos uniu. Aquela morte que aos poucos toma conta da casa, dos móveis, das baratas, dos cheiros, dos gestos... até chegar ao olhar. Aquela morte que é como as visitas que não se vão, que sentam e inventam assuntos pra ficar... Talvez até não tenha sido exatamente assim o tempo todo. Mas parece que foi. Então foi. Foi o que restou de todo o tempo. Lembrar disso tudo me deixa exausta.

Senta-se novamente, luz sobre ela se apaga.

Homem entra em cena, sapatos e roupa iguais ao do defunto. Está com as mãos nos bolsos.

- Eu não fui sempre assim, morto. Até os primeiros anos do casamento eu ainda estava vivo... Ou foram os primeiros dias? Não lembro mais... (Em um dos bolsos, acha uma pequena tira de papel, que lê) "Não desista, seu sonho está perto de se realizar". Espera aí: esse é o bilhete do biscoito da sorte que restou daquele jantar caríssimo, que ela comeu até não poder mais e ainda disse que não queria nada comigo! (Mexe no outro bolso e pega outro bilhete, que lê) "Alguém vai lhe ajudar, não desista". Claro! E esse aqui é do outro jantar, bem mais barato, em que a mãe dela me garantiu: "deixa comigo, meu filho". Agora eu lembro... Pra dar sorte, carreguei os dois no dia do casa... Porra, aquela desgraça me enterrou com a roupa do casamento! Precisa dizer como foram os sessenta anos juntos? Não, não posso ter agüentado tanto. Acho que foram só cinqüenta... só...
Depois de tudo que passei, se alguém me perguntasse quais são minhas três certezas, eu diria: bem, das minhas três certezas, duas são dúvidas... Por que é tão difícil transformar o sonho em realidade e tão fácil transformar a realidade em pesadelo? Por que a gente não percebe a tempo quando se está morrendo?
Certeza, certeza mesmo, só tenho uma coisa: sorte não vem com biscoitos...
As melhores lembranças? (Suspira profundamente, excitado) Das paixões incontáveis, todas felizmente correspondidas por olhares sinceros e corpos cheios de desejo por mim... nas revistas, pequenas, em minhas mãos, ou na TV, iluminadas, diante dos meus olhos... nos out-doors, imensas, em público, na frente de todo mundo, imensas... Que merda!
Será que nunca fizemos algo pra mudar? Acho que uma vez nós tentamos... ficamos uma noite inteira lembrando as coisas boas que passamos, como que tentando nos agarrar a alguma coisa...

Luz volta sobre mulher, em pé, ao lado do homem.

Mulher - Tentando...
Homem - Sim, tentamos, não foi?.
Mulher - Não, tentando lembrar... passamos a noite inteira tentando lembrar alguma coisa boa. Não conseguimos, ficamos em silêncio e você dormiu.
Homem - Não, você dormiu!
Mulher - Você não dormiu?
Homem - Não, nem você?
Mulher - Não.

O tom é de melancolia.

Mulher - ... então você teve muitas paixões...
Homem - ... todas correspondidas pela minha mão direita.
Mulher – (em tom confessional, baixo) – Eu tive apenas uma... me puxou pela mão direita... malas prontas... malas desfeitas. Por que você não me traiu?
Homem – Por que você não partiu?
Mulher – Por que você não partiu?
Homem - Por que você não me traiu?

Silêncio.

Homem – Eu sei, você ficou só pra me atazanar! Só pode!
Mulher – É... só pra ficar ao lado de um peidão, fedorento e ainda por cima punheteiro! Era o sonho da minha vida!

Estão um de costas para o outro.

Homem – Mala!
Mulher – Peste!
Homem – Boceta!
Mulher – Belo vocabulário! Desse jeito vão te transferir logo, logo pro inferno.
Homem – Comparado com a vida com você, seria um alívio... Boceta!
Mulher (falando baixo) – Caralho...

São interrompidos por um outro caixão que entra, carregado por duas pessoas vestidas de preto, que saem logo de cena. O caixão é deixado no lado oposto ao do homem.

Homem (olhando o outro caixão) – Espero que seja uma companhia mais agradável.
Mulher – Deve ser mais um infeliz como você. Ou pior... olha só, não veio viva alma pra velar...
Homem – Antes só...
Mulher (se aproximando do outro caixão) – Pobre defunto solitário, ninguém pra dar um último adeus a este corpo... mau cheiroso...
Homem – Lembra o cheiro de sua comida.
Mulher – Que você comia e se lambuzava.
Homem – E arrotava, aquele cheiro de morte.
Mulher - E o vinho vagabundo que você trazia? Mão de vaca! Era você que amassava as uvas com seus pés podres? Cheiro de morte...
Homem – Você bebia e se lambuzava.
Mulher – Pra dormir e esquecer.
Homem – Eu não esqueci o gosto da sua comida no meu último dia. Você se superou. Nunca foi tão ruim... Não tinha apenas cheiro, mas um gosto estranho... de morte.
Mulher esboça um sorriso revelador.
Homem esboça o espanto da descoberta.
Mulher – Nada comparado com o vinho que você trouxe no seu... último dia. (A ironia das últimas palavras dá lugar a um tom hesitante). Aquilo sim... era gosto... de... morte.

Silêncio.

Homem esboça um sorriso revelador. Mulher esboça o espanto da descoberta.
Luzes sobre o homem e a mulher se apagam. Apenas os caixões ficam iluminados por alguns instantes, antes do escuro absoluto.

O túnel e o gol

O filme acabou e eles foram jantar num ótimo restaurante francês. Era o primeiro encontro. Durante a primeira taça de vinho, concordaram que o filme era denso. No início da segunda, ela, que se preparava para herdar a profissão do pai psicanalista, sentiu-se mais à vontade para discorrer com entusiasmo sobre o simbolismo erótico da cena do trem penetrando o túnel. Igualmente mais solto, ele, que na verdade detestara o filme, sorriu de um jeito desafiador e disse que não via nada de erótico em um trem entrar num túnel.
- Não?
- Não!
- O que simboliza, então?
- Nada.
- Mas o diretor quis dizer...
- Só que todo mundo vê um trem entrando no túnel e nada mais. Há uma grande diferença entre o que se quer dizer e o que se entende.
- A diferença talvez seja a falta de cultura.
- Ou a arrogância.
- A ignorância.
- Concordo, ignorar o óbvio. Ninguém que vê uma cena dessas fica pensando: “Oh, isso simboliza um pau entrando numa vagina”!
- Ninguém uma vírgula - reagiu ela, rápida como um trem bala. Ou simplesmente como uma bala.

A segunda garrafa acirrou a polêmica. O trem era, sim, um pau entrando numa vagina e isso era de um erotismo simbólico evidente! Só ele não via isso! A resposta veio no mesmo tom alterado. E quem quer saber de simbolismo erótico? Por acaso ela conhecia alguma locadora com espaço escondido para filmes com cenas de trens penetrando túneis?

- Isso é pornografia!
- E daí? Seria melhor ter alugado logo um pornô!

Os clientes do restaurante viam tudo com o espanto, passando os olhos de um para o outro como quem assistisse a uma partida de tênis entre Freud e Rocco Sinfredi. Quase chegando às vias de fato, pediram a terceira garrafa, que terminaram de beber na casa dela. E foram felizes para sempre. Ela, vendo naquele amor a mais pura versão erótica da história do Chapeuzinho Vermelho. Ele, vendo naquele jogo interminável de controvérsias a relação perfeita, só comparável às discussões sobre futebol. Ou a um gol. Sem qualquer simbologia. Simplesmente um belo gol.

Conselho

A bunda era perfeita. Divina, seria mais adequado. Parecia exigir com ela a relação que se tem com um deus. Adora-se à distância, tem-se o desejo de ficar frente a frente – no caso, frente a costas - para conferir se existe mesmo e, se esse momento chegar, não se sabe o que fazer.

Mas pode ser pior. Diante de deus, depois da surpresa inicial, as chances de decepção com ele são muito grandes. “Barbas brancas, hein!” Ou: “Não podia me chamar mais tarde, não”? Diante daquela bunda as chances de decepção são igualmente consideráveis, só que com você. O peso da responsabilidade de seu pau meramente humano dar conta daqueles contornos místicos pode, literalmente, colocar tudo abaixo. E se o fracasso levá-lo a um desejo de morte, vá que deus atenda! Vá que, além de não ter barbas brancas, ele seja um baita gozador – e a história está cheia de indícios de que é. Antes de você reclamar da hora do chamado, ele vai colocar o dedo na boca e dizer: “Psss! Você pediu e, convenhamos, mereceu”!

Quando se trata de admirar divindades, o melhor é fazer exatamente como se deve olhar um deus e como ele deve nos olhar, para que não haja mútua decepção: com a devida distância. E infinita fantasia.

Natureza

Até hoje poucos acreditam nesta história e em como algo ridiculamente insólito jogou um cético consciente ao outro extremo. Certamente, por serem igualmente céticos. O certo é que foi com ele – e não com quem ouve a história – que aconteceu aquele fato inusitado, que mudou sua vida. Ou melhor, praticamente determinou o seu fim. Tudo começou quando caminhava em seu bairro, como fazia todo o dia. Um lugar com ruas sem calçamento, com areia fina devido à proximidade com o mar. Naquela manhã, estranhou o olhar mais demorado e, sem nenhuma dúvida, dirigido exclusivamente para ele, daquele bicho pousado sobre um poste. Um urubu. Foi uma sensação ruim, mas passou. No segundo dia, o urubu estava no chão e, meio aos pulos, o acompanhou uns 20 metros, ao seu lado, olhando desafiadoramente para ele. Um frio passou por sua espinha. O suor ficou frio. Naquele dia, ele voltou por outro caminho. Uma frase, repetida como um mantra, tentou apagar aquela terrível sensação. “Foi só uma coincidência, nada mais”. No terceiro, o urubu estava no meio da rua deserta, como a esperá-lo para um duelo. Que ridículo, pensou. Que ridículo sentir medo de um urubu, que só ataca carniças. Seguiu seus passos. Mas quando tentou passar pelo urubu, o bicho colocou-se à sua frente. Quando tentou desviar, o urubu foi para o mesmo lado. Era como se estivessem naqueles momentos cômicos em que duas pessoas vão para o mesmo lado na rua e ficam como que dançando frente a frente, fruto de um mesmo pensamento mantido por uma fração de segundos. O urubu não apenas dançou com ele, como avançou. Não teve mais dúvida. Não era um momento cômico. Era a dança da morte. Se o urubu tinha um pensamento naquele momento, era de morte. Essa era sua natureza. Será que sentiu cheiro de morte? Ele cheirava à morte? O cheiro chega primeiro que a morte, como um prenúncio? Aquele urubu queria carne morta, mas fresca. E era a sua. Ele saiu em disparada de volta para casa. Trancou-se no quarto e lá ficou por horas, dias. A mulher já estava desesperada. O médico fez uma bateria de exames. Estava com a saúde de um jovem, apesar de seus 55 anos. Mas nada o convencia. O laudo da natureza era absoluto e definitivo. Você já soube de algum caso de exame errado? Certamente que sim. Mas já viu algum caso de urubu que se alimentasse de algum animal vivo? Era só esperar. Questão de poucas horas. E em horas mesmo, já sem se alimentar, entrou em coma. Sentiu sua carne sendo picada. Primeiro aos poucos, depois vorazmente. Um pequeno banquete. Pequeno, pois emagrecera muito nos últimos dias. Quando o urubu estava prestes a chegar aos olhos, veio o clarão. Em sua volta, a mulher soluçava e o médico tentava explicar como fora sua salvação. Somente sua falta de consciência fez com que fosse alimentado, para recuperar parte de suas forças. Mas não teve santo que o convencesse de que não estava no purgatório. Morto e grato ao súbito ato de bondade do urubu, por deixar intactos seus olhos para a hora de ver o Senhor.

A perseguição

Tem uns trinta e poucos anos. Alta, cabelos curtos. Vou segui-la. Uma nuca com pelinhos loiros e uma bela bunda, marcada por uma saia preta justa, justificam a perseguição implacável de uma mulher por quilômetros. Mas há outros atrativos: carrega uma maleta também preta, de couro, usa óculos escuros, tem dedos finos e pés delicados que a levam decidida daquele jeito. Com certeza, para onde bem entender. Pode ser uma executiva tarada. Uau! Trabalhou o dia inteiro, está a caminho de casa para tomar um banho e precisa de alguém pra comer depois. Por isso, vai levar o primeiro que encontrar por trás - sim, a escolha deve ser aleatória, arriscada, irracional. Ai, ai, ai, daqui a pouco ela se vira, repentinamente, olha direto pra mim e diz: “rua tal, número tal, daqui a meia hora”. E eu vou ter que decorar a rua e o número. Putz, sou ruim pra caralho nessas coisas. Não, não, ela nem vai se virar. Vai só dizer: “pode continuar me seguindo”. E com aquela voz rouca: “não para, não para”. Nossa! E quem vai querer parar?! Continuo minha perseguição à espera de um sinal. Você aposta que ela vai se virar ou não? Eu aposto que não. Ela entra no banco. Deve retirar uma grana. A festa vai ser boa. Entro ou espero? Tenho que entrar. É uma perseguição implacável e não posso perder um lance. Talvez o primeiro sinal seja dado na fila do caixa. Ela vai roçar sua mão, discretamente, no meu pau. Chegamos à fila. Meu Deus, estou de pau duro. Calma, cara. Se é muita excitação ao mesmo tempo, ok, esquece a aposta e vê se não faz escândalo. Ela chega ao caixa. Em seguida, o caixa ao lado me chama. Passo lentamente por ela e sinto seu perfume. O funcionário à sua frente arregala os olhos pra ela. O que será que ela disse? Será que convidou o filho da puta e me deixou na mão? Ou será que o negócio dela é a três? Por mim, eu encaro. Impaciente, o caixa à minha frente me pergunta o que, afinal, eu quero. Cacete, o que eu digo? Nem conta eu tenho nesse banco. Vou inventar qualquer coisa. Mas o quê? Antes que eu fale uma bobagem qualquer, toca o alarme. Graças a Deus. Todo mundo se vira pra ela. Mais de três eu não topo. Mas não é nada disso, ela tem uma arma na mão e atira pra cima. Dá um salto e me pega pelo braço, ficando atrás de mim, com a arma apontada pra minha cabeça. Grita, sem a voz rouca: “se alguém se mexer, leva chumbo, leva chumbo”! E quem vai duvidar?! Pega rapidamente um pouco de grana do caixa apavorado. Saímos do banco. Por favor, não se mexam. Deixem que ela me leve. Afinal, ela ia me levar de qualquer jeito mesmo. Entramos em seu carro. Arrancamos a toda velocidade. A polícia chega. Começa a perseguição pelas avenidas movimentadas que se abrem para nós. Ela não fala mais nada. Aciona uma trilha sonora. Tudo parece correr no ritmo da música. O carro da polícia ora se aproxima, ora se distancia. O que será que eles estão pensando neste exato instante, enquanto nos perseguem? O que será que ela pensa? Onde isso tudo vai parar? E quem quer parar?! Não para, não para! Estou ficando de pau duro. 

O estalo

O humor é um soco que a vida revida na morte. E a morte tinha chegado para o marido da Cleusa. Devair, o Deva, foi seu único homem. Casou cedo. Agora tinha 46. O falecido estacionara no caixão aos 60. Para ela, a vida tinha sido um caminho pra morte. Aquele lugar, o trabalho, a casa, era uma morte que vinha, já estando. Uma visita que não se ia. Não era uma coisa, a vida, ponto, depois a outra, a morte, ponto final. Eram coisas embaralhadas, com uma vantagem nítida pra morte. Ela pensava essas coisas, vendo aquela gente chorando. E ela com uma doideira que tinha chegado, forasteira. Era uma vontade de rir desvairada. Era um estalo: estava livre do Devair, imprestável, que falava com ela tanto quanto agora. A vida após a morte ela não sabia se existia, mais o estalo, ah, isso existia. Chorar, se chora quando se tem vontade. Ou quando mentimos tanto que acreditamos na mentira que nos mentimos. O que não ocorre quando há o estalo. E a Cleusa ali, consigo e o estalo, louca pra rir no meio do enterro do marido. Estourando, vendo os algodões no nariz, o terno do casamento - imaginando se ele já não tinha casado com aqueles algodões no nariz e se não vivera sempre com eles. Estourando, com os motivos de longos anos mortos, sufocando-a naquela sala, como se também usasse algodões no nariz e só uma boa risada tivesse o poder de explodir tudo. Estourando, até que estourou. E riu, numa pequena explosão, que gerou outra, maior, e mais outra e uma seqüência de gargalhadas violentamente altas. Cleusa saiu segurando a barriga, rindo sem parar, diante dos olhares incrédulos dos entes queridos. Não havia mais nada a fazer ali. Saiu, chorando de rir, para a cidade e para um ônibus e para uma outra cidade. Na viagem, um pouquinho antes de dormir, cansada de tanto rir, só teve tempo de mais um pensamento: que a morte, agora, quando viesse, que fosse num único soco, que desse conta de nocauteá-la. Que esse negócio de vir vindo, de ir chegando, de se aproximar já estando, de bater e aos poucos matando, nunca mais. Nunca mais.

Morte linda

O ônibus urbano deu a partida para seu curto trajeto. A conversa precisava ser objetiva. E foi.
- Você sabia que meu marido morreu antes de ontem?
A pergunta-notícia feita de supetão surpreendeu a colega de funcionalismo público, no banco de trás. Era preciso revirar logo alguma expressão. Olhos viúvos, apontados para ela, exigiam.
- Mas... ele tava doente?
- Coração. Em casa, depois do almoço. Hoje fui dar início às papeladas. É xerox pra cá, xerox pra lá...
- Vai levar meses.
Rápido silêncio e a colega achou que uma notícia melhor talvez mudasse a rota.
- Hoje saiu o contracheque.
Nada. Era só mais uma tragédia. E ambas foram devidamente enfileiradas e abatidas pelo implacável e inusitado humor. Fulminante como a morte.
- Contrachoque, isso sim! Pra receber eu deveria ter pego o marca-passo do meu marido!

No mesmo encontro, houve tempo para mais uma precisa constatação.
- Ele morreu exatamente como o pai, a mãe, um irmão e o tio: dormindo. Morte linda.
- Morte linda.
E na perspectiva do inevitável:
- Eu não deveria ser mulher dele, tinha que ser parente.

(História baseada em um diálogo real)

Que mar?

Foi paixão à primeira vista. Incontrolável. Ainda mais que a oportunidade podia ser a única. Como todo apaixonado, não pensou duas vezes antes de fazer uma besteira. E foi falar com ela, que estava sentada na areia, olhando o imenso mar azul.

- Eu também adoro olhar o mar... o cumprimento tentou ser um começo diferente, com um certo ar poético, que revelasse de cara sua sensibilidade e criasse uma identidade com o que certamente ela sentia naquele momento. Sem dúvida isso diminuiria as chances de uma negativa. E o que ele precisava agora era uma simples permissão para sentar-se ao lado dela. “Eu também adoro o mar”, estava convencido, fora um achado. Sem dúvida, um “oi” sofisticado.

- Que mar?

A resposta foi quase inaudível. Mesmo assim, foi como se uma onda gigante batesse violentamente contra sua cara.

- Oi - resignou-se.

- Por quê?

- Eu estava vendo você olhando o mar...

- Que mar?

- À sua frente.

- Você quer dizer o abismo?

Abismado, fez nova tentativa.

- Eu sou o Caio. E você, como se chama?

- Como?

- Como se chama?

- Não, como você pode dizer assim tão fácil quem você é?

- Como assim?

- Eu não sei quem eu sou.

E ele já não sabia o que estava fazendo ali. Tudo desmoronara em segundos. Paixão, beleza, tesão. Mas já estava sentado ao lado dela. E teve que ouvir exatas duas horas e 28 minutos, contados no relógio, sobre sua crise existencial. A cada história trágica que ouvia sentia-se enterrar no chão, exatamente como nossos pés fazem quando ficamos parados à beira da praia, sentindo as ondas e aquela pequena e controlável amostra do que seria estar na areia movediça.

Depois das duas horas e 28 minutos, não contou mais o tempo. Não ouviu mais nada daquele rosário de tristezas. Desligou-se completamente, hipnotizado pelo ir e vir das ondas do mar. Tanto, que nem viu quando a garota levantou-se e partiu, certamente sentindo-se mais leve e até experimentando um certo prazer com o aroma da maresia.

Minutos depois, uma mulher aproxima-se dele.

- Eu também adoro olhar o mar...

- Que mar?

Foi uma fração de segundos até se dar conta do que respondera. O suficiente para vê-la apenas de costas, afastando-se a balançar a cabeça. E uma bunda maravilhosa.