O tamanho

E então aparece no computador, sei lá como, aquele anúncio entre ridículo e tentador: Pênis Enorme e Grosso Agora. Agora? Como agora? Esfrego algum líquido gelatinoso e mágico no pau e aparece um gênio?
- Faça seu pedido: pênis enorme e grosso agora ou...
- A Luana Piovani*!
- Não, ou nada.
- Mas tá bom assim. O que falta mesmo é a Luana Piovani!
- É pênis enorme e grosso ou nada.
- Lua...
Como o gênio é um baita cara, me olha de forma estranha e tem todo o jeito de ter usado seus poderes em benefício próprio...
- Nada não, deixa pra lá.

****

Imagino também meu pau na academia. Malhando firme. A Luana enfiando com jeitinho aquelas rodas de peso e ordenando: “1, 2, 1, 2!”. E depois de um treinamento intensivo, incluindo o uso de anabolizantes, lá está ele, um verdadeiro Schwarzenegger disputando espaço a porradas com minhas pernas.

- ... mas prefiro caras mais sensíveis, disse a Carlinha, querendo distância do meu exterminador.

A máxima é velha porque é máxima: não faça aos outros o que você não quer que façam a você. Muito menos com um pênis enorme e grosso.

*Em homenagem ao Luiz Fernando Veríssimo.

O assento

Forma é conteúdo. A maneira como se fala uma determinada coisa define a reação de quem ouve, até mais do que o significado do que é dito.

- O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água, retire-o e leve-o para fora da aeronave.

A doçura com que as aeromoças anunciam essa probabilidade terrivelmente ameaçadora, que todo mundo sabe que pode acontecer e que o fato de o assento ser flutuante ou pesado como uma âncora não faz muita diferença, faz toda a diferença. Elas falam como se estivessem contando uma historinha para dormirmos em paz, quando o natural, pelo que é dito, seria termos insônias ou pesadelos horríveis. Elevam a altas potências o adequadíssimo termo "flutuante". Você se sente como quem vai realmente flutuar. Cadáveres bóiam. Você flutua. E com aquela interpretação, dá pra imaginar a aeronave pousando como um aviãozinho de papel no mar tranquilo, sob um lindo céu azul. Eu, junto com mais de cem passageiros, nos espreguiçamos, sonolentos como quem tira uma soneca na rede, vestimos nossas sungas e biquínis, passamos bronzeador e colocamos sob o braço nossos assentos flutuantes. Uns correm olimpicamente sobre as asas e se jogam fazendo acrobacias no ar, outros saltam direto para a água e nadam como surfistas em busca da melhor onda. Ou alguém imagina que, com aquela delicadeza toda, algo diferente possa acontecer?

Se os passageiros não entram em pânico antes da decolagem não é por se sentirem seguros com os equipamentos da aeronave. Forma é conteúdo. O mérito é da entonação das aeromoças.

A receita

Não era de hoje que a mulher insistia para ele ir ao médico. Do jeito que andava estressado, os 53 anos e o enfarto disputavam para ver qual deles chegaria primeiro. Mas foi uma insistente alergia no rosto e não uma dor no braço esquerdo que o levou a marcar a consulta. “Baixa imunidade”, constatou o médico. Diante do inquestionável índice elevado de colesterol e antevendo uma daquelas mijadas cientificamente sustentadas, tentou a estratégia da humildade, absolutamente falsa, ao mostrar-se consciente de seus deveres. “Preciso voltar a fazer exercício, doutor”. Mas a receita o deixou surpreso: “Você precisa é de mais prazer. Se o exercício for prazeroso, faça. Se não, o melhor para recarregar as energias pode ser apenas deitar no sofá com os pés pra cima e esquecer as preocupações. E em vez de ler sobre economia quando for ao banheiro, ache aquela coleção antiga da Playboy"... Saiu do consultório seriamente pensando em iniciar uma campanha pelo prêmio Nobel de medicina para seu novo ídolo. Chegou em casa já com outra cara e diante do “e aí?” da mulher, adolescentemente resumiu o tratamento, a seu modo:

- Tá liberada a punheta e o futebol na TV!

****

A propósito, a mulher, além de pensar seriamente em iniciar uma campanha pela cassação do diploma do médico, ainda tentou apelar para a razão com um discurso denso, feito antes que o tratamento iniciasse, domingo, às quatro da tarde, ao vivo.

- Não sei qual é a graça de acompanhar um campeonato de quase um ano, partida por partida, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Não entendo que emoção pode haver diante de uma fatalidade tão anunciada: perdendo ou ganhando, nada dura. Logo vem outro jogo e outro campeonato. Que tanta emoção existe pra tanto jogo? Se perde, fica ainda mais deprimido. Se ganha, vibra e goza da cara do outro, com uma felicidade que parece que vai durar a eternidade e não passa de um dia...

Ele interrompeu, sério e filosófico:

- E não é assim a vida?

A frase abalou o discurso da mulher. E não é assim a vida? Nada dura. O que vale é o momento. E em rápidos momentos a gente ganha, perde, fica triste, vibra, recomeça, até morrer, no jogo final. Ele percebeu o efeito do que dissera. Ela ficou muda. Ele quase riu. Pois não era nada daquilo, não. Foi só uma frase improvisada pra ver se ela parava de falar. Ele não sabe e nem quer entender porque gosta de futebol. Só sabe que é bom pra caralho. E pensou: “Por falar nisso, onde será que escondi minhas Playboys”?

A memória

O cara tem uma memória impressionante. Agora, que anda precisando, ninguém aposta mais nada com ele. Mas já ganhou algum dinheiro com isso. Placar da grande decisão de 1970? Essa até você? Tem certeza? Quer apostar? Placar da final da Copa Catarinense de Futebol de Botão de 1970?

O problema era quando o passado não obedecia a sua vontade. Isso ocorria estranha e perigosamente pela manhã. Sem muita explicação lógica a programação era temática: sexo. Quando chegou lá em casa, tarde da noite, me contou que hoje acordou com a campainha. Abriu a porta e era Malu, sua ex, que ele chamava de Loba Má, camiseta molhada, pedindo pra entrar e come-lo. Esfregou os olhos e era a mulher do vizinho perguntando pela Marli, com quem casou há cinco anos para mudar de vida. E ele ali, na frente da mulher do Sérgio, já ficando de pau duro, começando a armar o pijama. Baixa, porra. Baixa, porra.

Voltou para a cama e ao deitar no travesseiro macio, viu a centímetros de sua boca a incomparável bunda de Cíntia, outra ex. O cutucão da Marli na sua bunda quase o acordou enquanto amassava feito um gato o travesseiro, devidamente babado.

- Não ta esquecendo de nada?

- Claro que não, claro que não, como poderia? - disse lentamente, ainda com a bunda da Cíntia na boca.

Cacete! Com tantas lembranças exuberantes, esqueceu do aniversário da Marli. Imperdoável, ainda mais para ele. Como estava atrasado, seu plano para remendar era mandar algo durante o dia e ganhar tempo para passar em algum shopping antes de chegar, à noite. Na despedida, preparou o terreno:

- Tenho uma reunião e talvez chegue mais tarde.

Antes de ir para o trabalho comprou às pressas um batom vermelho e um cartão. Quando pegou a caneta para escrever, como que vinda de um relâmpago, Fabinha, a ex mais recente, começou a massagear lentamente seu pau sobre as calças. Se alguém chamasse aquilo de sexo oral não seria atendido. Pior, seria processado por calúnia e difamação. Enquanto escrevia, sugado pela lembrança de Fabinha, sorria.

Quando voltou para casa, mais tarde como o combinado, com um infalível colar de pérolas verdadeiras e uma sedutora garrafa de vinho tinto, encontrou duas malas na rua. Sobre uma delas, um bilhete. “Endereço errado. Vá com as malas para lá. Adeus, Marli”. Não entendeu nada. Sobre a outra, o cartão que enviara. Começava com “Fabinha”, terminava com “à noite tem mais... do teu Pirulitão” e no meio tinha tanta bandalheira que o melhor era esquecer. Como se pudesse.

A crueldade

Ele era um alto executivo de uma empresa multinacional e, como tantos colegas, tinha uma vida paralela, uma identidade secreta. Mas não exatamente para o sexo, como os outros. Despido das roupas de grife e das decisões que interferiam em mercados do mundo, todo final de tarde ele se dirigia a um estúdio para dublar desenhos infantis. Durante seis horas corrompia, demitia, ficava mais rico. E tinha a hora de ser um ursinho fofo, um ratinho dócil. Acontece que ele se apegou de forma inesperada à última personagem, um brinquedo de plástico que ganhava vida. Seu analista até tentou fazer uma relação com a vida que levava, como se a personagem simbolizasse uma saída inconsciente para aquela superficialidade toda. Bobagem, dizia ele ao colega, que uma vez por mês juntava sete anões travestis para surubas fabulosas. Quem disse que corromper, foder com concorrentes e subalternos, e ainda por cima ganhar dinheiro, são coisas superficiais? São atitudes complexas, que exigem uma imensa capacidade de escapar das culpas. E das investigações do fisco. Ele fazia aquilo tudo por puro prazer. Assim como a dublagem. Rejeitava completamente também a tese da válvula de escape. Gostava de ver os outros imitando sua voz. Prazer e poder. E o amigo, que já desistira de fazer análise, com aquele papo todo de complexo de Branca de Neve, concordava totalmente. Não importava como, nem com quem. Prazer e poder. O tal boneco de plástico virou mania nacional e passou a exigir mais tempo de estúdio. A paixão era tanta – quase tão grande quanto seu ego – que largou tudo para viver aquele grande amor. Até porque dinheiro não lhe faltaria. A vida parecia se encaminhar para a perfeição. Até o dia em que se encontrou com o autor da história do boneco de plástico. Sem culpa, com o poder que me concedi, cara a cara, olho no olho, lhe disse: quem escreve essa porra sou eu, estou cagando pro sucesso desse boneco de merda e sua dublagem maravilhosa, e de agora em diante ele é só um boneco, imóvel e mudo. Branco como esta tela estava há pouco, perguntou por sua paixão sincera pela personagem.

- Fui eu. Já ouviu falar das armadilhas do amor? Tudo calculado.

Desafiador e crítico:

- E essa combinação ridícula de executivo e dublador?

- Tentativa frustrada de humanizá-lo.

Racional:

- Por que você não deu razão ao analista? A história poderia ter tomado outro rumo!

- Não gosto de analistas. E você não merecia, depois de esconder dele que o brinquedo de plástico só ganhava vida para torturar sadicamente ursinhos fofos e ratinhos dóceis.

- E os amigos, o lance das identidades secretas e do sexo sem limites?

- Bem, isso era real. Mas só. O resto era ficção, inclusive seu dinheiro.

O cara desabou, imóvel e mudo. E antes de morrer, ainda teve forças para a derradeira e bíblica tentativa, a culpa: se foi você quem me criou... por que... por que me abandou? Com cruel prazer, dei a história por terminada.

A sala de espera

Disse tudo o que ensaiara em meses de insônias. Inclusive com o gran finale, quando de uma só vez mandou dono e chefe se foderem. No mesmo dia, com o mesmo ímpeto com que chutou pra cima o insuportável emprego estável, com ótimo salário, alugou uma sala em um prédio executivo. A sala vazia era a referência ideal para sua cabeça. Sem falar nada em casa, cumpria seu horário na sala, para onde levou apenas uma cadeira de praia, um livro e um mp3 com músicas antigas.
Após três dias, por engano, uma pessoa bateu à porta. Pediu para entrar, ficou 15 minutos em silêncio e saiu com uma leve despedida gestual. No dia seguinte foram duas pessoas, em momentos alternados e sem qualquer explicação. Bateram, entraram, ficaram 15 minutos e saíram, silenciosamente. Como no outro dia vieram seis, do nada, resolveu levar algumas almofadas e mais algumas cadeiras de praia. O convívio era mímico. No máximo trocavam sorrisos que combinavam com a sala vazia.
Depois de um mês, com o bolso vazio, precisou pedir o emprego de volta. Dono e chefe deram um bom desconto para sua reação intempestiva. E também no salário, que ficou pela metade. A mulher não ficou sabendo de nada. Só da contenção de gastos da empresa.
Mesmo apertado, mantém a sala alugada. E ainda paga uma secretária para organizar os grupos e marcar horários. Já tem lista de espera. Todos entram, esperam, não acontece nada, trocam sorrisos vazios, não falam nada, não reclamam de nada, saem e voltam para suas vidas. Inclusive ele, que agora é apenas mais um frequentador da sala de espera. Por 15 minutos.

A questão

Naquela segunda-feira, o início de uma nova campanha publicitária mudaria sua vida. Seu coração foi mais rápido que o olhar rotineiro para o outdoor, no rotineiro caminho do ônibus, e determinou a paixão avassaladora. Se você não sabe, aquela acelerada que o coração dá quando nos apaixonamos é justamente para chegar à frente na competição com olhares rotineiros, pensamentos racionais e outros afins. Feito o parênteses científico, sigo a história. O rosto não era daquelas modelos perfeitas. Tinha sardas no pequeno nariz, sorriso contido, brilho no olhar, mas o que pegou mesmo foi seu jeito meigo de vender materiais de construção. Tudo isso somado a sua costumeira depressão de segunda, arrebatou-lhe completamente. Afinal, a melancolia é um convite a esse tipo paixão. Não importa como aconteceu, mas o fato é que ele descobriu que ela era de sua cidade e arrumou um jeito de usar sua profissão de vendedor de seguros para chegar mais perto da moça. Para resumir, ele conseguiu não apenas conhecê-la e vender-lhe um bom seguro, como conquistou seu coração. Não me pergunte como. Ele feio, meia idade e corpo desajeitado. Ela linda, jovem e, até então, casada com um modelo. Foram morar juntos, a jovem, ele, sua paixão e uma questão: quando iria acordar? Quando a esmola é muito grande, o santo desconfia. Aquilo lhe parecia demais pra ser verdade. Não foi uma nem duas vezes que ela, com ciúmes, perguntava desconfiada de onde vinham aquelas marcas rochas no corpo. Para ela, chupões. Na versão dele, esbarrões. Ela nunca acreditaria que eram resultados dos beliscões que ele mesmo se dava para ver se não estava sonhando. Quando iria acordar? É muita esmola! Depois de um tempo, a surpresa novamente marcou sua vida. Em outra segunda-feira qualquer, ao ir buscá-la na agência de modelos, deu de cara com o ex-marido. Queria conversar. Como ela estava atrasada, foram a um bar ali perto. A demora masculina em começar uma conversa para expor sentimentos profundos fez com que boas doses de uísque fossem chamadas para preparar o terreno. Isso não é surpresa. Surpreendente foi que, sob o efeito dos drinques, nada tenha sido tratado sobre a história que envolvia os três. Em compensação – ou por causa disso -, iniciaram uma profunda amizade. E toda a segunda-feira o vendedor de seguros saía mais cedo para ter tempo de alimentar com prazerosas conversas e boas doses de uísque seu encontro com o novo melhor amigo, o ex-marido de sua bela e meiga mulher modelo. Que de nada sabia. E que depois de alguns meses de silêncio e dúvidas cruelmente contidas, explodiu em uma nova e violentíssima reação de ciúmes. Afinal, seu novo amor, depois de chegar com marcas de chupões pelo corpo, agora trazia um indisfarçável cheiro de álcool, feliz da vida e esgotado de assuntos para conversas caseiras, um dos pilares da relação. Sem mais delongas, tão decidida como quando largou o primeiro, deixou o segundo. Primeiro e segundo, mais unidos e amigos do que nunca, somaram suas surpresas à falta de dinheiro – gasto com uísque e chocolate – e foram morar juntos. Agora, só falavam da moça, em porres caseiros e homéricos. O primeiro: como joguei tanta riqueza fora! O segundo: era esmola demais mesmo! A foto mais recente da moça, mais bela do que nunca, iniciou uma nova campanha publicitária, ironicamente para a companhia de seguros do segundo ex. Se tivesse sido feita com o intuito da vingança, não teria ficado tão lindamente vingativa. Era uma segunda-feira e os homens sentiram o ônibus passar em câmera lenta pelo gigantesco outdoor. Lotados de autopiedade e culpa, viram as primeiras lágrimas desobstruírem seus canais como se estivessem armadas com britadeiras, que abriram caminho para o duplo choro infantil e incontrolável. Sem sucesso, os abraços tentaram o mútuo consolo de soluços inconsoláveis, que vinham sem qualquer constrangimento. Lotado de rotina, sem aparente surpresa diante da cena, o ônibus seguiu em velocidade normal, como fazia todo o dia, entre o centro e o bairro, onde dois homens dividem o mesmo teto com suas paixões e uma questão, que toda a noite deita com eles e os faz ninar.

O contexto

No momento, ele pensa em trocar de prédio. De preferência, para um bairro distante.

Na noite passada, havia comemorado mais uma etapa vencida na relação com sua namorada. Era uma conseqüência da etapa anterior, em que já podia dizer as mais pesadas bobagens no ouvido dela, enquanto trepavam. Quando ela começou a responder com baixarias que por pouco não o tiraram da concentração, percebeu que colocar no lugar do filme cult dos sábados à noite um pornô de quinta categoria seria absolutamente natural.

Ligou pra ela no final da tarde e disse para chegar às nove, pois receberia a visita de um velho amigo de infância que estava de passagem pela cidade. Matariam as saudades e depois o amigo viajaria de volta à cidade natal dos dois. E assim foi. Quer dizer, mais ou menos.

O amigo acabou saindo mais cedo, para não pegar trânsito até o aeroporto. Ele aproveitou, então, para os preparativos da noite. Olhou a programação do pay-per-view. Às dez começaria um pornô perfeito. Prometia de tudo e, principalmente, cenas curtas. É meu dia de sorte, pensou, lembrando do desastre que foi essa fase com a última namorada. As cenas eram infinitas e, se estimularam alguma coisa, foi o sono dela. A brochada dele foi a última coisa que ela viu antes de dormir profundamente. Aliás, foi a última coisa que ela viu dele, literalmente.

A namorada pensou em chegar um pouco antes das nove, para conhecer o amigo de infância. Era quase que como conhecer a primeira pessoa da família dele - e ao pensar isso se deu conta, em um lapso de romantismo, que aquele era um sinal de que aquela história tinha algo mais. Sorria sozinha enquanto isso passava por sua cabeça e atravessava o corredor até a porta do apartamento. Mas seu sorriso foi diminuindo quando começou a passar por seus ouvidos os gritos do namorado, que atravessaram a porta do apartamento e a atingiram violentamente. Incrédula, arrastou-se por mais uns metros. No lugar do sorriso, uma expressão de horror e espanto. No lugar da fantasia romântica, imagens surpreendentes. Ela não sabe até agora de onde tirou forças para correr de volta para o carro e dali para casa, sem causar um grave acidente de trânsito.

Voltando um pouco.
Ele ligou para a operadora de TV. Primeiro, ouviu a voz gravada de um homem.

- Bem vindo a NTV. Se você tem problema técnico, digite um, se quer comprar um filme, digite dois, se...

Ele digitou logo o dois para encurtar o assunto. Foi quando entrou outro atendimento automático, desta vez com uma voz feminina.

- Certo. Você quer comprar um filme. É isso mesmo? Se é isso mesmo, diga sim, se não, diga...

Ele disse sim. Como seu humor ainda estava influenciado diretamente pela excitação do porvir, o sim foi educado e firme. Sentiu-se dizendo o solene sim de um casamento.

- Não entendi, disse a gravação do outro lado.
Aquele casamento parece que não daria certo.

- Sim! Quase gritou.

- Certo. Você não quer comprar o filme.

- Eu quero!

- Desculpe. Opção inválida. Se você não quer comprar um filme, por que ligou para a NTV? Diga: problema técnico ou pay-per-view ou outro assunto.

- Pay-per-view.

- Pausadamente, por favor.

- Pay...

- Não entendi.

- Pay-per-view! Agora gritou mesmo.

- Certo. Você mudou de idéia e agora quer um filme. Diga agora o canal.

- 169.

- Certo.

- Milagre, ela ouviu!

- Opção inválida.

- Não, não, desculpe!

- Ah, tá. Diga agora o filme.

-Puta merda. Tem que dizer o nome? Não pode ser o horário?

- Opção inválida.

- O filme das dez.

- Opção inválida.

- O diretor, a atriz principal...

- Opção inválida. O nome do filme, por favor. Seu tempo está se esgotando.

- (Susurrando) Põe...

- Não entendi. Repita, por favor.

- Põe no...

- Não enten...

- (Falando grosso) Põe no meu rabinho!

- Pausadamente, por favor.

- (Falando grosso e alto) Põe no meu rabinho!

- Pau...

- (Falando grosso e enlouquecidamente alto) Põe... no meu... rabinho! Que caralho!

- Certo. Você escolheu o filme Põe no meu rabinho. Agora diga: é Põe no meu rabinho 1 ou Põe no meu rabinho 2?

Não se conteve e soltou um longo grito de desespero.

Mas vá explicar aos vizinhos e à namorada que foi mesmo de desespero...

Para sempre (esboço para uma esquete de teatro)

Mulher sozinha, sentada à beira do caixão onde jaz o marido morto. Faz o sinal da cruz e levanta-se.

- Ah, meu Deus. Tenho piedade de vós. Aturar esta peste por toda eternidade! Só com paciência divina mesmo! Estes cinqüenta anos, pra mim, já pareciam intermináveis! Ou foram 60? Nem lembro mais...
Rapaz bom, honesto, trabalhador... Minha mãe repetia à exaustão. Acho que casei de exausta.
Se alguém me pedisse pra fazer um resumo da minha vida, eu diria: por favor, me peça outra coisa, se eu resumir, minha vida some! Me peça outra coisa, me peça pra inventar uma vida pra minha vida. Cinqüenta, sessenta anos... Sabe o que restou de lembrança desse imprestável? Seu hálito podre, sua unha do pé me cravando de madrugada, seu ronco irritante... Pior, seus peidos assustadores... Acho que dormia de exausta...
Rapaz bom, honesto, trabalhador... Minha mãe me matou no cansaço. Meu pai me levou pro abate. Me deu um beijo. Senti sua marretada na testa. Depois aquela algema de ouro vagabundo... Até que a morte os separe... Pois sim, a morte nos uniu. Aquela morte que aos poucos toma conta da casa, dos móveis, das baratas, dos cheiros, dos gestos... até chegar ao olhar. Aquela morte que é como as visitas que não se vão, que sentam e inventam assuntos pra ficar... Talvez até não tenha sido exatamente assim o tempo todo. Mas parece que foi. Então foi. Foi o que restou de todo o tempo. Lembrar disso tudo me deixa exausta.

Senta-se novamente, luz sobre ela se apaga.

Homem entra em cena, sapatos e roupa iguais ao do defunto. Está com as mãos nos bolsos.

- Eu não fui sempre assim, morto. Até os primeiros anos do casamento eu ainda estava vivo... Ou foram os primeiros dias? Não lembro mais... (Em um dos bolsos, acha uma pequena tira de papel, que lê) "Não desista, seu sonho está perto de se realizar". Espera aí: esse é o bilhete do biscoito da sorte que restou daquele jantar caríssimo, que ela comeu até não poder mais e ainda disse que não queria nada comigo! (Mexe no outro bolso e pega outro bilhete, que lê) "Alguém vai lhe ajudar, não desista". Claro! E esse aqui é do outro jantar, bem mais barato, em que a mãe dela me garantiu: "deixa comigo, meu filho". Agora eu lembro... Pra dar sorte, carreguei os dois no dia do casa... Porra, aquela desgraça me enterrou com a roupa do casamento! Precisa dizer como foram os sessenta anos juntos? Não, não posso ter agüentado tanto. Acho que foram só cinqüenta... só...
Depois de tudo que passei, se alguém me perguntasse quais são minhas três certezas, eu diria: bem, das minhas três certezas, duas são dúvidas... Por que é tão difícil transformar o sonho em realidade e tão fácil transformar a realidade em pesadelo? Por que a gente não percebe a tempo quando se está morrendo?
Certeza, certeza mesmo, só tenho uma coisa: sorte não vem com biscoitos...
As melhores lembranças? (Suspira profundamente, excitado) Das paixões incontáveis, todas felizmente correspondidas por olhares sinceros e corpos cheios de desejo por mim... nas revistas, pequenas, em minhas mãos, ou na TV, iluminadas, diante dos meus olhos... nos out-doors, imensas, em público, na frente de todo mundo, imensas... Que merda!
Será que nunca fizemos algo pra mudar? Acho que uma vez nós tentamos... ficamos uma noite inteira lembrando as coisas boas que passamos, como que tentando nos agarrar a alguma coisa...

Luz volta sobre mulher, em pé, ao lado do homem.

Mulher - Tentando...
Homem - Sim, tentamos, não foi?.
Mulher - Não, tentando lembrar... passamos a noite inteira tentando lembrar alguma coisa boa. Não conseguimos, ficamos em silêncio e você dormiu.
Homem - Não, você dormiu!
Mulher - Você não dormiu?
Homem - Não, nem você?
Mulher - Não.

O tom é de melancolia.

Mulher - ... então você teve muitas paixões...
Homem - ... todas correspondidas pela minha mão direita.
Mulher – (em tom confessional, baixo) – Eu tive apenas uma... me puxou pela mão direita... malas prontas... malas desfeitas. Por que você não me traiu?
Homem – Por que você não partiu?
Mulher – Por que você não partiu?
Homem - Por que você não me traiu?

Silêncio.

Homem – Eu sei, você ficou só pra me atazanar! Só pode!
Mulher – É... só pra ficar ao lado de um peidão, fedorento e ainda por cima punheteiro! Era o sonho da minha vida!

Estão um de costas para o outro.

Homem – Mala!
Mulher – Peste!
Homem – Boceta!
Mulher – Belo vocabulário! Desse jeito vão te transferir logo, logo pro inferno.
Homem – Comparado com a vida com você, seria um alívio... Boceta!
Mulher (falando baixo) – Caralho...

São interrompidos por um outro caixão que entra, carregado por duas pessoas vestidas de preto, que saem logo de cena. O caixão é deixado no lado oposto ao do homem.

Homem (olhando o outro caixão) – Espero que seja uma companhia mais agradável.
Mulher – Deve ser mais um infeliz como você. Ou pior... olha só, não veio viva alma pra velar...
Homem – Antes só...
Mulher (se aproximando do outro caixão) – Pobre defunto solitário, ninguém pra dar um último adeus a este corpo... mau cheiroso...
Homem – Lembra o cheiro de sua comida.
Mulher – Que você comia e se lambuzava.
Homem – E arrotava, aquele cheiro de morte.
Mulher - E o vinho vagabundo que você trazia? Mão de vaca! Era você que amassava as uvas com seus pés podres? Cheiro de morte...
Homem – Você bebia e se lambuzava.
Mulher – Pra dormir e esquecer.
Homem – Eu não esqueci o gosto da sua comida no meu último dia. Você se superou. Nunca foi tão ruim... Não tinha apenas cheiro, mas um gosto estranho... de morte.
Mulher esboça um sorriso revelador.
Homem esboça o espanto da descoberta.
Mulher – Nada comparado com o vinho que você trouxe no seu... último dia. (A ironia das últimas palavras dá lugar a um tom hesitante). Aquilo sim... era gosto... de... morte.

Silêncio.

Homem esboça um sorriso revelador. Mulher esboça o espanto da descoberta.
Luzes sobre o homem e a mulher se apagam. Apenas os caixões ficam iluminados por alguns instantes, antes do escuro absoluto.

O túnel e o gol

O filme acabou e eles foram jantar num ótimo restaurante francês. Era o primeiro encontro. Durante a primeira taça de vinho, concordaram que o filme era denso. No início da segunda, ela, que se preparava para herdar a profissão do pai psicanalista, sentiu-se mais à vontade para discorrer com entusiasmo sobre o simbolismo erótico da cena do trem penetrando o túnel. Igualmente mais solto, ele, que na verdade detestara o filme, sorriu de um jeito desafiador e disse que não via nada de erótico em um trem entrar num túnel.
- Não?
- Não!
- O que simboliza, então?
- Nada.
- Mas o diretor quis dizer...
- Só que todo mundo vê um trem entrando no túnel e nada mais. Há uma grande diferença entre o que se quer dizer e o que se entende.
- A diferença talvez seja a falta de cultura.
- Ou a arrogância.
- A ignorância.
- Concordo, ignorar o óbvio. Ninguém que vê uma cena dessas fica pensando: “Oh, isso simboliza um pau entrando numa vagina”!
- Ninguém uma vírgula - reagiu ela, rápida como um trem bala. Ou simplesmente como uma bala.

A segunda garrafa acirrou a polêmica. O trem era, sim, um pau entrando numa vagina e isso era de um erotismo simbólico evidente! Só ele não via isso! A resposta veio no mesmo tom alterado. E quem quer saber de simbolismo erótico? Por acaso ela conhecia alguma locadora com espaço escondido para filmes com cenas de trens penetrando túneis?

- Isso é pornografia!
- E daí? Seria melhor ter alugado logo um pornô!

Os clientes do restaurante viam tudo com o espanto, passando os olhos de um para o outro como quem assistisse a uma partida de tênis entre Freud e Rocco Sinfredi. Quase chegando às vias de fato, pediram a terceira garrafa, que terminaram de beber na casa dela. E foram felizes para sempre. Ela, vendo naquele amor a mais pura versão erótica da história do Chapeuzinho Vermelho. Ele, vendo naquele jogo interminável de controvérsias a relação perfeita, só comparável às discussões sobre futebol. Ou a um gol. Sem qualquer simbologia. Simplesmente um belo gol.

Conselho

A bunda era perfeita. Divina, seria mais adequado. Parecia exigir com ela a relação que se tem com um deus. Adora-se à distância, tem-se o desejo de ficar frente a frente – no caso, frente a costas - para conferir se existe mesmo e, se esse momento chegar, não se sabe o que fazer.

Mas pode ser pior. Diante de deus, depois da surpresa inicial, as chances de decepção com ele são muito grandes. “Barbas brancas, hein!” Ou: “Não podia me chamar mais tarde, não”? Diante daquela bunda as chances de decepção são igualmente consideráveis, só que com você. O peso da responsabilidade de seu pau meramente humano dar conta daqueles contornos místicos pode, literalmente, colocar tudo abaixo. E se o fracasso levá-lo a um desejo de morte, vá que deus atenda! Vá que, além de não ter barbas brancas, ele seja um baita gozador – e a história está cheia de indícios de que é. Antes de você reclamar da hora do chamado, ele vai colocar o dedo na boca e dizer: “Psss! Você pediu e, convenhamos, mereceu”!

Quando se trata de admirar divindades, o melhor é fazer exatamente como se deve olhar um deus e como ele deve nos olhar, para que não haja mútua decepção: com a devida distância. E infinita fantasia.

Natureza

Até hoje poucos acreditam nesta história e em como algo ridiculamente insólito jogou um cético consciente ao outro extremo. Certamente, por serem igualmente céticos. O certo é que foi com ele – e não com quem ouve a história – que aconteceu aquele fato inusitado, que mudou sua vida. Ou melhor, praticamente determinou o seu fim. Tudo começou quando caminhava em seu bairro, como fazia todo o dia. Um lugar com ruas sem calçamento, com areia fina devido à proximidade com o mar. Naquela manhã, estranhou o olhar mais demorado e, sem nenhuma dúvida, dirigido exclusivamente para ele, daquele bicho pousado sobre um poste. Um urubu. Foi uma sensação ruim, mas passou. No segundo dia, o urubu estava no chão e, meio aos pulos, o acompanhou uns 20 metros, ao seu lado, olhando desafiadoramente para ele. Um frio passou por sua espinha. O suor ficou frio. Naquele dia, ele voltou por outro caminho. Uma frase, repetida como um mantra, tentou apagar aquela terrível sensação. “Foi só uma coincidência, nada mais”. No terceiro, o urubu estava no meio da rua deserta, como a esperá-lo para um duelo. Que ridículo, pensou. Que ridículo sentir medo de um urubu, que só ataca carniças. Seguiu seus passos. Mas quando tentou passar pelo urubu, o bicho colocou-se à sua frente. Quando tentou desviar, o urubu foi para o mesmo lado. Era como se estivessem naqueles momentos cômicos em que duas pessoas vão para o mesmo lado na rua e ficam como que dançando frente a frente, fruto de um mesmo pensamento mantido por uma fração de segundos. O urubu não apenas dançou com ele, como avançou. Não teve mais dúvida. Não era um momento cômico. Era a dança da morte. Se o urubu tinha um pensamento naquele momento, era de morte. Essa era sua natureza. Será que sentiu cheiro de morte? Ele cheirava à morte? O cheiro chega primeiro que a morte, como um prenúncio? Aquele urubu queria carne morta, mas fresca. E era a sua. Ele saiu em disparada de volta para casa. Trancou-se no quarto e lá ficou por horas, dias. A mulher já estava desesperada. O médico fez uma bateria de exames. Estava com a saúde de um jovem, apesar de seus 55 anos. Mas nada o convencia. O laudo da natureza era absoluto e definitivo. Você já soube de algum caso de exame errado? Certamente que sim. Mas já viu algum caso de urubu que se alimentasse de algum animal vivo? Era só esperar. Questão de poucas horas. E em horas mesmo, já sem se alimentar, entrou em coma. Sentiu sua carne sendo picada. Primeiro aos poucos, depois vorazmente. Um pequeno banquete. Pequeno, pois emagrecera muito nos últimos dias. Quando o urubu estava prestes a chegar aos olhos, veio o clarão. Em sua volta, a mulher soluçava e o médico tentava explicar como fora sua salvação. Somente sua falta de consciência fez com que fosse alimentado, para recuperar parte de suas forças. Mas não teve santo que o convencesse de que não estava no purgatório. Morto e grato ao súbito ato de bondade do urubu, por deixar intactos seus olhos para a hora de ver o Senhor.

A perseguição

Tem uns trinta e poucos anos. Alta, cabelos curtos. Vou segui-la. Uma nuca com pelinhos loiros e uma bela bunda, marcada por uma saia preta justa, justificam a perseguição implacável de uma mulher por quilômetros. Mas há outros atrativos: carrega uma maleta também preta, de couro, usa óculos escuros, tem dedos finos e pés delicados que a levam decidida daquele jeito. Com certeza, para onde bem entender. Pode ser uma executiva tarada. Uau! Trabalhou o dia inteiro, está a caminho de casa para tomar um banho e precisa de alguém pra comer depois. Por isso, vai levar o primeiro que encontrar por trás - sim, a escolha deve ser aleatória, arriscada, irracional. Ai, ai, ai, daqui a pouco ela se vira, repentinamente, olha direto pra mim e diz: “rua tal, número tal, daqui a meia hora”. E eu vou ter que decorar a rua e o número. Putz, sou ruim pra caralho nessas coisas. Não, não, ela nem vai se virar. Vai só dizer: “pode continuar me seguindo”. E com aquela voz rouca: “não para, não para”. Nossa! E quem vai querer parar?! Continuo minha perseguição à espera de um sinal. Você aposta que ela vai se virar ou não? Eu aposto que não. Ela entra no banco. Deve retirar uma grana. A festa vai ser boa. Entro ou espero? Tenho que entrar. É uma perseguição implacável e não posso perder um lance. Talvez o primeiro sinal seja dado na fila do caixa. Ela vai roçar sua mão, discretamente, no meu pau. Chegamos à fila. Meu Deus, estou de pau duro. Calma, cara. Se é muita excitação ao mesmo tempo, ok, esquece a aposta e vê se não faz escândalo. Ela chega ao caixa. Em seguida, o caixa ao lado me chama. Passo lentamente por ela e sinto seu perfume. O funcionário à sua frente arregala os olhos pra ela. O que será que ela disse? Será que convidou o filho da puta e me deixou na mão? Ou será que o negócio dela é a três? Por mim, eu encaro. Impaciente, o caixa à minha frente me pergunta o que, afinal, eu quero. Cacete, o que eu digo? Nem conta eu tenho nesse banco. Vou inventar qualquer coisa. Mas o quê? Antes que eu fale uma bobagem qualquer, toca o alarme. Graças a Deus. Todo mundo se vira pra ela. Mais de três eu não topo. Mas não é nada disso, ela tem uma arma na mão e atira pra cima. Dá um salto e me pega pelo braço, ficando atrás de mim, com a arma apontada pra minha cabeça. Grita, sem a voz rouca: “se alguém se mexer, leva chumbo, leva chumbo”! E quem vai duvidar?! Pega rapidamente um pouco de grana do caixa apavorado. Saímos do banco. Por favor, não se mexam. Deixem que ela me leve. Afinal, ela ia me levar de qualquer jeito mesmo. Entramos em seu carro. Arrancamos a toda velocidade. A polícia chega. Começa a perseguição pelas avenidas movimentadas que se abrem para nós. Ela não fala mais nada. Aciona uma trilha sonora. Tudo parece correr no ritmo da música. O carro da polícia ora se aproxima, ora se distancia. O que será que eles estão pensando neste exato instante, enquanto nos perseguem? O que será que ela pensa? Onde isso tudo vai parar? E quem quer parar?! Não para, não para! Estou ficando de pau duro. 

O estalo

O humor é um soco que a vida revida na morte. E a morte tinha chegado para o marido da Cleusa. Devair, o Deva, foi seu único homem. Casou cedo. Agora tinha 46. O falecido estacionara no caixão aos 60. Para ela, a vida tinha sido um caminho pra morte. Aquele lugar, o trabalho, a casa, era uma morte que vinha, já estando. Uma visita que não se ia. Não era uma coisa, a vida, ponto, depois a outra, a morte, ponto final. Eram coisas embaralhadas, com uma vantagem nítida pra morte. Ela pensava essas coisas, vendo aquela gente chorando. E ela com uma doideira que tinha chegado, forasteira. Era uma vontade de rir desvairada. Era um estalo: estava livre do Devair, imprestável, que falava com ela tanto quanto agora. A vida após a morte ela não sabia se existia, mais o estalo, ah, isso existia. Chorar, se chora quando se tem vontade. Ou quando mentimos tanto que acreditamos na mentira que nos mentimos. O que não ocorre quando há o estalo. E a Cleusa ali, consigo e o estalo, louca pra rir no meio do enterro do marido. Estourando, vendo os algodões no nariz, o terno do casamento - imaginando se ele já não tinha casado com aqueles algodões no nariz e se não vivera sempre com eles. Estourando, com os motivos de longos anos mortos, sufocando-a naquela sala, como se também usasse algodões no nariz e só uma boa risada tivesse o poder de explodir tudo. Estourando, até que estourou. E riu, numa pequena explosão, que gerou outra, maior, e mais outra e uma seqüência de gargalhadas violentamente altas. Cleusa saiu segurando a barriga, rindo sem parar, diante dos olhares incrédulos dos entes queridos. Não havia mais nada a fazer ali. Saiu, chorando de rir, para a cidade e para um ônibus e para uma outra cidade. Na viagem, um pouquinho antes de dormir, cansada de tanto rir, só teve tempo de mais um pensamento: que a morte, agora, quando viesse, que fosse num único soco, que desse conta de nocauteá-la. Que esse negócio de vir vindo, de ir chegando, de se aproximar já estando, de bater e aos poucos matando, nunca mais. Nunca mais.

Morte linda

O ônibus urbano deu a partida para seu curto trajeto. A conversa precisava ser objetiva. E foi.
- Você sabia que meu marido morreu antes de ontem?
A pergunta-notícia feita de supetão surpreendeu a colega de funcionalismo público, no banco de trás. Era preciso revirar logo alguma expressão. Olhos viúvos, apontados para ela, exigiam.
- Mas... ele tava doente?
- Coração. Em casa, depois do almoço. Hoje fui dar início às papeladas. É xerox pra cá, xerox pra lá...
- Vai levar meses.
Rápido silêncio e a colega achou que uma notícia melhor talvez mudasse a rota.
- Hoje saiu o contracheque.
Nada. Era só mais uma tragédia. E ambas foram devidamente enfileiradas e abatidas pelo implacável e inusitado humor. Fulminante como a morte.
- Contrachoque, isso sim! Pra receber eu deveria ter pego o marca-passo do meu marido!

No mesmo encontro, houve tempo para mais uma precisa constatação.
- Ele morreu exatamente como o pai, a mãe, um irmão e o tio: dormindo. Morte linda.
- Morte linda.
E na perspectiva do inevitável:
- Eu não deveria ser mulher dele, tinha que ser parente.

(História baseada em um diálogo real)

Que mar?

Foi paixão à primeira vista. Incontrolável. Ainda mais que a oportunidade podia ser a única. Como todo apaixonado, não pensou duas vezes antes de fazer uma besteira. E foi falar com ela, que estava sentada na areia, olhando o imenso mar azul.

- Eu também adoro olhar o mar... o cumprimento tentou ser um começo diferente, com um certo ar poético, que revelasse de cara sua sensibilidade e criasse uma identidade com o que certamente ela sentia naquele momento. Sem dúvida isso diminuiria as chances de uma negativa. E o que ele precisava agora era uma simples permissão para sentar-se ao lado dela. “Eu também adoro o mar”, estava convencido, fora um achado. Sem dúvida, um “oi” sofisticado.

- Que mar?

A resposta foi quase inaudível. Mesmo assim, foi como se uma onda gigante batesse violentamente contra sua cara.

- Oi - resignou-se.

- Por quê?

- Eu estava vendo você olhando o mar...

- Que mar?

- À sua frente.

- Você quer dizer o abismo?

Abismado, fez nova tentativa.

- Eu sou o Caio. E você, como se chama?

- Como?

- Como se chama?

- Não, como você pode dizer assim tão fácil quem você é?

- Como assim?

- Eu não sei quem eu sou.

E ele já não sabia o que estava fazendo ali. Tudo desmoronara em segundos. Paixão, beleza, tesão. Mas já estava sentado ao lado dela. E teve que ouvir exatas duas horas e 28 minutos, contados no relógio, sobre sua crise existencial. A cada história trágica que ouvia sentia-se enterrar no chão, exatamente como nossos pés fazem quando ficamos parados à beira da praia, sentindo as ondas e aquela pequena e controlável amostra do que seria estar na areia movediça.

Depois das duas horas e 28 minutos, não contou mais o tempo. Não ouviu mais nada daquele rosário de tristezas. Desligou-se completamente, hipnotizado pelo ir e vir das ondas do mar. Tanto, que nem viu quando a garota levantou-se e partiu, certamente sentindo-se mais leve e até experimentando um certo prazer com o aroma da maresia.

Minutos depois, uma mulher aproxima-se dele.

- Eu também adoro olhar o mar...

- Que mar?

Foi uma fração de segundos até se dar conta do que respondera. O suficiente para vê-la apenas de costas, afastando-se a balançar a cabeça. E uma bunda maravilhosa.